29 julho 2007

Trindade VIII - 29 de Julho de 2007

Profecia de Oséias 1.2-10
Salmo 85
Carta aos Colossenses 2.6-15 (16-19)
Evangelho de São Lucas 11.1-13

Ser perdoado

Um dos maiores desafios da vida espiritual consiste na acolhida ao perdão de Deus. Há algo em nós, seres humanos, que nos mantém agarrados aos nossos pecados e não permite que Deus apague nosso passado, além de nos oferecer um começo completamente novo. Por vezes, parece até que quero provar para Deus que minha escuridão é profunda demais para ser vencida. Embora Deus queira me restaurar à dignidade plena de filiação, continuo insistindo em permanecer como servo sob contrato. Será mesmo que desejo ser restaurado à responsabilidade plena de filho? Desejo mesmo ser totalmente perdoado de forma que um caminho absolutamente novo se torne possível? Confio mesmo em mim e em uma possibilidade tão radical? Quero mesmo romper com minha rebeldia profundamente enraizada contra Deus... e entregar-me tão absolutamente ao amor de Deus para que uma nova pessoa possa emergir? Receber perdão exige total disponibilidade para permitir que Deus seja Deus e faça Ele mesmo a cura toda, restaurando e renovando. Enquanto eu mesmo desejar ou insistir ser parte da cura, terei só soluções parciais, permanecendo como empregado, por exemplo. Como servo ou empregado remunerado, posso ainda manter minha distância, revoltar-me, rejeitar, embirrar, fugir, ou reclamar do pagamento. Como filho querido, devo pedir por minha dignidade plena, começando a preparar-me para ser, eu próprio, pai.
Henri J. M. Nouwen,
The Return of the Prodigal Son,
A Story of Homecoming,

London, 1994


Rembrant,
O Filho Pródigo

Crescendo

Se as crianças são aceitas em sua condição mesma, devemos perguntar-nos sobre o que nos previne, como adultos, de sermos adultos. Não somente pais, mas adultos em geral, adultos em sua organização social e suas escolhas políticas, todos devemos discernir o que significa sermos responsáveis pela nutrição e encaminhamento... na direção da sociedade humana, de novos sujeitos ainda em processo de formação. Um livro recente, de um teólogo católico-romano, meditando sobre o quadro de Rembrandt, O retorno do Filho Pródigo, conclui com uma reflexão sobre nossa dificuldade no papel de pais, comparado com a fácil identificação, seja com o filho mais velho, seja com o mais moço: - Não desejo só ser aquele que é perdoado, mas também aquele que perdoa; não só aquele que é bem vindo à casa, mas também aquele que recebe? - (Henri J. M. Nouwen, The Return of the Prodigal Son: A Story of Homecoming, London, 1994)

Uma sociedade que empurra à dependência e aos padrões frustrados de comportamento, não capacitará adultos e se sentirem - em casa - com seus limites e suas escolhas, de forma a tornar possível acolher ou nutrir aos que ainda permanecem dependentes, ou que estão ainda em busca de sua própria liberdade. Como é então, que somos nós encorajados... a compreender a natureza da escolha adulta em nosso próprio ambiente?
Rowan Williams,
Lost Icons: Reflections on Cultural Bereavement
.

22 julho 2007

Trindade VII - 22 de Julho de 2007

Gênesis 18.1-10
Salmo 52
Colossenses 1.15-28
São Lucas 10.38-42

O Louvor de Marta

Bendita és tu, Marta, a quem o amor deu a confiança para falar.
Pelo fruto, a boca de Eva permaneceu fechada enquanto se escondia dentre as árvores.
Bendita é tua boca que se expressou forte, e com amor,
na mesa sobre a qual o Senhor estava reclinado.
Tu és maior que Sara que serviu aos servos, pois serviste ao próprio Senhor de todos.
Efrem (373), dos Hymns on Virginity and
on the Symbols of the Lord



A Pomba do Santo Espírito
Inspirada por Mosaicos da Igreja Primitiva, Roma, 1860


Contemplação e Ação

Conforme seus princípios dualistas, a teologia medieval muitas vezes estabeleceu uma ordem que, correspondendo à da vida espiritual e mundana - ou teoria e prática, valorizava mais a vida contemplativa que a
vita activa (a vida de ação). Mas era precisamente esta sobrevalorização da contemplação sobre o agir que grandes místicos como Eckhart e Teresa de Ávila criticaram e avançaram.

O texto relativo à esta visão, em termos do pensamento cristão, aparece na interpetação do relato do Novo Testamento sobre as duas irmãs, Marta e Maria... Uma atuou como hospedeira e a outra ouviu o ensino. Desde Santo Agostinho, a atenção quieta às palavras de Jesus e os cuidados incessantes das necessidades diárias do corpo foram interpretados como imagens da vita contemplativa e da vita activa. A primeira foi considerada como de maior valor, mais espiritual e mais essencial, enquanto que a outra, embora necessária, era de uma ordem inferior. Nesta tradição, Marta é tida como útil mas, de alguma forma, limitada, enquanto sua irmã é vista como espiritual, refinada e mais santa...

Meister Eckhart suscitou uma forte objeção contra isto.... Ele situa a ainda incompleta Maria bem no começo da vida espiritual enquanto que a Marta ativa já está bem adiante. - Marta temia que sua irmã permanecesse sem progresso... nos sentimentos de bem estar e doçura. É assim que este conselheiro espiritual reverte completamente o sentido bíblico do texto, o qual configura para Maria - a melhor parte - e, identificando-se a si próprio com a Marta ativista, diz - O Cristo falou e disse, - Fica em paz Marta, pois ela também escolheu a melhor parte. Isto (a inércia de Maria) vai ter fim... e ela será também bendita, como tu!-

Esta reversão não é só sobre a reabilitação de Marta e o comportamento ativo mas também sobre a abolição da divisão dos seres humanos entre ativistas e sonhadores, ativistas e introvertidos, e também a diferenciação entre a produtividade da ação e a receptividade da piedade. Ao não separar a ação de Marta da devoção contemplativa de Maria mas, antes, concebendo Maria
em Marta, Eckhart afasta a falsa supervalorização e a escolha compulsiva entre as duas formas de vida, a espiritual e a mundana. Na perspectiva do misticismo, esta hierarquia é insustentável. A verdadeira contemplação dá origem a ações justas; teoria e prática permanecem em conexão indissolúvel.
Dorothee Soelle,
The Silent Cry, Misticism and Resistence, 2001

13 julho 2007

Trindade VI - 15 de Julho de 2007


Deuteronômio 30.10-14
Salmo 82
Colossenses 1.1-14
São Lucas 10.25-37

BÊNÇÃO

Possa o Deus que dança na Criação
que nos abraça com amor humano,
que sacode nossas vidas como um trovão,
abençoar-nos e guiar-nos com poder
para encher o mundo com Sua justiça. Amém.
Janet Morley, All Desires Known



Deus criando as estrelas, Sano de Pietro,
século XV, Paris,
Figuras de Deus, Dominique Ponnau, UNESP


O Bom Samaritano e Outros

O sacerdote, o Levita e o homem que caiu nas mãos de salteadores se encontraram no céu para conversar sobre os velhos tempos. Como no céu não há passado ou futuro, descobriram-se bem em frente da hospedaria da estrada para Jericó.
"Eu me sinto terrível por não ter te ajudado," diz o sacerdote. "Mas eu não tinha um coraçao disponível o bastante. Continuo melhorando..."
"A última vez em que eu parei na estrada para ajudar alguém," disse o Levita, "fui agredido e me roubaram a carteira. Por isso, eu tive medo."

"Foi sorte eu estar no lugar certo e no tempo certo," disse o Samaritano. "não consigo parar de pensar; o óleo e o vinho serviram bem, as feridas cicatrizaram. Meu problema é que cheguei tarde para me envolver com o louvor."

O homem que fora assaltado tomou mais um gole de vinho. "A caridade começa em casa," disse, "...se eu tivesse mais cuidado, não teria caído naquela confusão toda. Mas sou muito grato a vocês os três. Precisamos muito de um passo para o lado... conforme a parábola! Sem ela, vocês nunca teriam sido salvos."
Stephen Mitchell, Parables and Portraits

09 julho 2007

Trindade V - 8 de Julho de 2007

Isaías 66.10-14
Salmo 30
Gálatas 6.14-18
São Lucas 10.1-12, 17-20

O Assombro e o Horror da Natureza

Assim como eu, muitos milhões de pessoas já devem ter se sentido horrorizados pela visão de documentários na TV que nos mostram a crueza - da vida na natureza. Uma série ficou particularmente bem conhecida. É O Planeta Vivo, de David Attenbourough. Como eu, devem ter sentido também a impotência diante da vida ou sobrevivência dentre os animais selvagens. Duas imagens permanecem: Primeiro, a de um pingüim macho que espera e resiste por três meses, na superfície gelada, cuidadosamente chocando um único ovo... equilibrado sobre seus pés. Enquanto a fêmea desaparece na busca de alimento, o macho ali permanece, virtualmente quieto, no frio mais absoluto, sem nada para comer, mês após mês. Quanto cuidado por um simples ovo! Como deve ser forte o impulso para permitir a vida de um filhote e assegurar a espécie.

A outra imagem é menos feliz. Trata-se de uma lagarta que poderá ser totalmente espicaçada e comida por formigas, se estas tiverem êxito em seu ataque. Para proteger-se, a lagarta produz uma resina que adere aos olhos das formigas. Desorientadas, passam a andar, perdidas, em roda. A elas junta-se também um odor estranho - da resina - e, assim, retornando para casa, dado o odor do inimigo, são atacadas e mortas como se fossem a lagarta mesma. São devoradas vivas por suas próprias semelhantes. Parece ser uma vingança cruel que não conseguimos compreender. Parece uma crueldade embutida na natureza mesma, sob muitas formas. Para muitos, esta percepção soa como pedra de tropeço para a fé em um Deus de amor, Autor de Criação.

O que se pode dizer? Primeiro, pelo menos, que aqueles animais não sabem de sua destinação. Nós é que podemos temer pelo que nos pode acontecer. Os animais não têm como antecipar tal pensamento. Também, diferentemente do que acontece com outros animais (cães, gatos, cavalos e outras espécies mais desenvolvidas...), parece que as formas mais inferiores de vida não sentem dor. Uma borboleta plana livre e, subitamente, desaparece ao ser engolida por um pássaro; mas ela não sabia o que iria acontecer, nem tinha conhecimento do processo mesmo - e até onde podemos supor - o que aconteceu não lhe foi doloroso. Enquanto voou com suas cores brilhando sob o sol, glorificou a Deus segundo a sua espécie. Ela foi ela mesma; viveu a forma de vida que Deus para ela preparou. Se é assim, há algo que se pode dizer... embora o efeito cumulativo - do - maior que engole o menor - ou seja, sem dúvida, muito triste. Foi este tipo de coisa e não a Teoria da Evolução o que desgastou a fé religiosa de Darwin! Nutrir-se e ser fonte de nutrição parece ser o padrão da natureza. O criador de um sistema assim não nos parece ser humano. Há aqui, contudo, uma advertência para que não pensemos em Deus em termos puramente humanos.
William Blake escreveu:

Tigre! Tigre! Brilho que queima
nas florestas da noite!
Que mãos ou olhos imortais
Poderiam emoldurar tua assimetria assustadora?

Estas são linhas que nos recordam do assombroso mistério da Criação. Nós pensamos humanamente, mas Deus pensa não só como nós... ele pensa também como tigre, como pássaro, como cobra, como estas criaturas. Ele as pensa e as conduz à existência.
Há dimensões de Deus refletidas na grandeza, maravilha e ameaças da natureza... que nossas pobres mentes nem podem imaginar. Contudo, somos deixados sem algo em que nos apoiar.
Para nós, Deus se revelou humanamente. Em Cristo, o nevoeiro dos mistérios se dissipa e percebemos o rosto humano de Deus. Somos humanos e Deus assim se relaciona com a humanidade.

Bendizemos Teu Santo Nome, ó Deus,
Pelo mistério e encanto da vida animal
Mas, acima de tudo... pelo fato de que, em Cristo
Tu nos encontras como um de nós.

D. Richard Harries, 41º Bispo da Diocese de Oxford,
Morning Has Broken




Criou, pois, Deus todos os sêres viventes... segundo as suas espécies.
E viu Deus que isso era bom. (Gênesis 1.21)



Disse Deus: e voem as aves...sob o firmamento dos céus. (Gênesis 1.20)


... e sobre a terra... (Gênesis 1.20)

CONFIANÇA

Lembremos sempre que há duas coisas mais incompatíveis que óleo e água - a saber, confiança e precupação. Você chamaria de atitude de confiança - se precisasse deixar algo a ser feito, em mãos de um amigo, e então passasse dias e noites com a cabeça cheia de ansiedade e preocupação, cogitando sobre se tudo teria mesmo sido feito de forma certa? Se você confiou em Deus... em algumas poucas coisas, Ele não falhou com você. Assim, confie agora para tudo, e veja se Ele não fará por você bem mais que... o que você jamais ousou ou pensou pedir.
Hannah Whitall Smith, A Religious Rebel

CONFIANÇA E VIDA NOVA

Se nós, em nossa vida humana, levamos a entrega a Deus a sério; se Deus nos invade como força da luz, como energia elementar, a única que possibilita uma vida nova - então seremos capazes de viver a nova vida.
Eberhard Arnold

29 junho 2007

Trindade IV - 1 de Julho de 2007


I Reis 19.16, 19-21
Salmo 77.1-2,11-20
Gálatas 5.1, 13-25
São Lucas 9.51-62

Santidade

O Mestre frequentemente afirmava que a santidade era menos o que foi feito e mais o que se permitiu acontecer. Para um grupo de discípulos que tinha dificuldade em compreender isto, ele contou a seguinte estória:
Era uma vez um dragão de uma só perna... que perguntou para centopéia... como é que você consegue administrar todas estas pernas? Eu mal consigo me arranjar com uma!
- Para dizer a verdade, respondeu a centopéia - Eu não as administro em absoluto!
Anthony de Mello, S.J. - One Minute Wisdom



Cerâmica e Cruz de Cantuária


A Grande Mistificação do Mal

Pode-se indagar se jamais houve antes, na história humana, povo com tão pouco chão sob seus pés - pessoas para quem toda alternativa disponível parecesse igualmente intolerável, repugnante e fútil, e que olhasse para além destas alternativas em busca de suas forças, tão inteiramente no passado ou ainda no futuro, e que, no entanto, sem serem sonhadores, eram capazes de esperar pelo sucesso de sua causa, tão quieta e confiantemente.

A grande mistificação do mal tem feito igual confusão com todos os nossos conceitos éticos. Pois o mal, aparecer disfarçado como luz, caridade, necessidade histórica ou justiça social é simplesmente desconcertante para quem quer que tenha crescido segundo nossos tradicionais conceitos éticos; já para cristãos, baseando suas vidas sobre a Escritura, tudo isto meramente confirma a iniquidade fundamental do mal... Quem resiste mesmo? Somente a pessoa cujo padrão final não é seu mesmo... princíoios, consciência, liberdade ou virtude, mas aquele que estiver pronto a sacrificar tudo isto quando chamado à obediência e ação responsável, na fé e adesão exclusiva a Deus - a pessoa responsável, que tenta fazer da sua vida toda uma resposta à questão e ao chamdo de Deus.
Dietrich Bonhoeffer, Letters and Papers from Prison


Cerâmica do I Século, Palestina


Todos... Miseráveis Pecadores


Sou sempre a favor da auto-estima espirital. Se devemos amar nosso próximo como a nós mesmos, o que está implícito por Jesus no segundo mandamento do sumário da Lei, precisamos primeiro amar-nos a nós mesmos. Devemos recordar e alegrar-nos pelo fato de que fomos criados à imagem de Deus e de que partilhamos da dignidade plena da Criação. Eu creio nisto. Mas eu também creio que em maioria, somos - miseráveis pecadores. Somos feitos miseráveis pelas ofensas que cometemos e também por suas conseqüências. O pecado e o mal nos tornam miseráveis. Mas isto não nega a dignidade da Criação; significa sim a realidade do pecado e de que -
nada há em nós que esteja são. O que não significa que não sejamos saudáveis. Significa, isto sim, que em nós mesmos, de nós mesmos, e por nós mesmos, nada temos dentro de nós que nos possa curar da enfermidade do pecado e do mal. A cura do pecado não é só uma questão da mente sobre a matéria; não se trata só de uma força de vontade que nos leve até a bondade... Nós todos precisamos de ajuda.
... especialmente as mulheres? Muitos... guardaram a noção de que, de alguma forma, os pecados da carne se interpõem entre o pecador e Deus.. Tais pecados, no entanto, não eram pecado por ofenderem a razão mas, antes, porque davam prazer... o que, no Calvinismo refratário do qual eram herdeiros, é um fim inaceitável. O sexo existia assim, só para a geração de crianças, vergonhoso para os homens e doloroso para as mulheres, ambos como parte de um plano divino; o sexo, por qualquer outro propósito, simplesmente juntaria dor e vergonha, especialmente se algum prazer sem punição estivesse envolvido. As mulheres eram tidas então como vasos de vergonha que, como Eva, Jezabel e Dalila, levaram seus homens a finais desastrosos.
Peter J. Gomes, The Good Book:
Reading the Bible with Mind and Heart

23 junho 2007

Trindade III - 24 de Junho de 2007

Zacarias 12.8-10, 13.1
Salmo 63.1-8
Galatas 3.23-29
São Lucas 8.26-39

O Critério do Reino

A confissão cristã suscitou uma conversão na estima sobre as mulheres que era então corrente tanto no Judaísmo como dentre os Gentíos. O texto tão bem conhecido e citado de Gálatas 3.28 é uma formula batismal primitiva que foi tomada e citada por São Paulo; "Desse modo não há diferença entre judeus e não judeus, escravos e livres, homens e mulheres: todos vocês são um só, em união com Cristo Jesus." Esta formula declara que os pontos clássicos de conflito humano - diferenças étnicas, status social e a guerra dos sexos, todos sendo sempre campos de tensão em ocasiões particulares com presença de preconceito e comportamento discriminatório - são irrelevantes para a comunidade cristã.
A vida cristã em comunidade era então regulada por critérios contrários ao que seria usual no mundo...
A reversão de valores expressa na formula batismal de Gálatas está bem de perto ligada à tradição de Jesus. Não só os pregadores itinerantes mas também os cristãos numa dada comunidade, se comprometiam com o critério do Reino de Deus, pregado por Jesus. Em última instância, estavam convencidos de que o Senhor Ressuscitado estava vivo e agindo dentre eles.. Em comentários sobre Gálatas 3.28, ainda lemos que aí se trata de uma esperança escatológica que somente se materializará no - final dos tempos -, quando Deus criar um novo céu e uma nova terra; aqui e agora, as coisas permancem como são. Alguns exegetas também distinguem uma significância salvadora - diante de Deus - que não tem a mesma significação que - diante dos homens -. Isto é em primeiro lugar, contraditório ao contexto, que se preocupa com o Batismo e com a comunidade em Cristo, e ainda com a comunidade, preocupada em ajustar sua conduta segundo o Espírito de Cristo (I Coríntios 12.1 e ss.) Ora, pelo Batismo a pessoa é feita nova criatura desde já, porque está em Cristo. A experiência de que Gálatas 3.28 ainda não fora cumprida, não exclui a convicção mesma afirmada. Quem quer que a aplique somente - ao final dos tempos - ou que é somente válida - diante de Deus - deixa a realidade entregue às suas próprias leis.
Suzanne Heine, Women and Early Christianity:
Are the Feminist Scholars Right? 1987


Zacarias 12.8-10,13.1
(A promessa em Davi)
História do jovem Davi, final do século XII, Bíblia de Souvigny,
Figuras de Deus, Dominque Ponnau, UNESP
Moldura e arte de Paula Suzuki



Um em Cristo


Podemos alegrar-nos porque, subjacente ao Sacramento do Santo Batismo, está a promessa de Cristo em renovar-nos, para que então possamos começar a viver além das antigas barreiras que negam a humanidade plena daqueles que eram da "religião, classe, raça ou gênero errados." A antiga formula batismal citada por São Paulo em Gálatas 3.27-28 recorda que as divisões da velha criação foram vencidas, e antigas formas de dominação não mais pertencem à vida em Cristo. Assim como a divisão original entre macho e fêma foi ultrapassada, também a de judeus e gentios, escravos e livres... devem agora ser compreendidas no contexto das antigas igrejas domésticas. Alguns podem arguir que atualmente a lista deve ser ainda mais longa, para incluir hetero-sexuais e homossexuais, fisicamente aptos e deficientes, ricos e pobres, capitalistas e socialistas. É a negação e vitória destas divisões, bem como a nova vida de liberdade, o sinal da presença de Cristo.

Letty M. Russell, Church in the Round:
Feminist Interpretation of the Church, 1993

15 junho 2007

Trindade II - 17 de Junho de 2007

I Reis 21.1-10 (11-14), 15-21a
Salmo 5.1-8
Gálatas 2.15-21
São Lucas 7.36 - 8.3


Outro Ponto de Vista

Aqui, (I Reis, capítulos 16-21)... a sexualidade é tecida numa temática bem maior, como um tapete de gênero, poder, perdão e idolatria... Uma compreensão melhor desta rainha poderosa (Jezabel), deve levar em conta tanto o seu próprio contexto social, bem como a polêmica teológica bíblica... na condição de princesa fenícia... ela estava acostumada à privilégios reais, desacostumada com os impulsos mais democráticos da cultura Israelita, onde se considerava que a terra dada a cada família israelita era dom de Yahweh mesmo, bem mais que concessão do rei. Daí a resposta brutal à recusa de Nabote em vender sua vinha... compreendida, de seu ponto de vista, como resposta real apropriada à insubordinação, em contraste com a inaceitável fraqueza de Acabe enquanto líder."
Claudia V. Camp, I and II Kings - The Women's Bible Commentary



Um encontro bem pastoral


Dom Renato Raatz fala aos alunos


Dom Renato Raatz, Diocesano de Pelotas,
palestrante especial sobre a vocação ao Ministério Ordenado



Eucaristia, o centro da vida da casa



Comunhão da família SETEK



Jacinto e Joaquim, estudantes Angolanos


Mais um aniversário da Educação Teológica na IEAB.
15 de Junho, festa em lembrança de Evelyn Underhill, teóloga leiga anglicana, mística, falecida neste dia, em 1941, lembrada como "madrinha do Seminário". A data é significativa pelos 104 anos "do Seminário" e tem como marca de identidade o nome e a vocação mesma de Underhill.
O texto a seguir foi lido e distribuido aos presentes na celebração da Santa Eucaristia.

ADORAÇÃO


"A adoração em todas as suas formas é a resposta da criatura ao Eterno; nós nem precisamos delimitar esta definição à esfera humana. Há um sentido em que podemos pensar da vida do universo inteiro, visível e invisível, consciente e inconsciente, como um ato de adoração, glorificando sua Origem, seu Sustentador e seu Fim. É só em um contexto assim que podemos começar a compreender a emergência e o crescimento do espírito da adoração nos seres humanos, ou a influência que ela exerce sobre suas atividades. A adoração pode ser encoberta ou direta, consciente ou inconsciente. Se consciente, seu colorido emocional pode passar do medo à reverência, chegando ao amor que se doa completamente.. Mas quaisquer que as suas formas de expressão possam ser, é sempre uma relação sujeito-objeto; e sua existência constitui uma forte crítica à todas as explicações imanentes da Realidade.

A adoração é o reconhecimento da Transcendência; quer dizer, da Realidade independente do adorador, o que é mais ou menos profundamente... colorido pelo mistério... que aí já chegou primeiro.
Assim, tomamos muito a sério esta coisa estranha que é a Adoração, dando-lhe o status que merece, dentre as diversas respostas dos humanos ao ambiente. Descobrimos que ela nos obriga a assumir uma atitude para com o ambiente. Mesmo em sua forma mais crua, a lei da oração - na verdade, o fato da oração - é já a lei da fé.

A vida de oração do cristão, embora profundamente pessoal, é essencialmente a vida da pessoa que é também parte de um grupo... O cristão não pode cumprir com seu dever espiritual na solidão. Ele é parte de um complexo social e espiritual por sua nova relação com Deus... mesmo sua contemplação mais solitária não é matéria simplesmente individual; a adoração deve ser sempre tida em sua relação com o propósito e a ação de Deus que a incita, bem como à vida total da Igreja.

A liturgia cristã - tomando a palavra em seu sentido mais geral - é a incorporação artística desta vida social e também pessoal. Aqui, não estamos preocupados com suas origens históricas, suas implicações doutrinais, ou com as formas principais que assumiu em seu desenvolvimento; a nós concerne agora sua existência aqui, aqui e agora, seu valor e sentido como o cenário ordenado da adoração incorporada da Igreja, a mediação clásssica pela qual a incessante ação adorante da Noiva de Cristo recebe expressão visível e audível, passada e presente, abrindo-se à história, mas sempre com Deus, atuando como cenário da adoração cristã; não se trata pois de um pobre esboço que a alma de alguém, ou mesmo de um grupo, seja capaz de fazer."


Trecho do livro
Adoração, publicado em 1936 Como disse um dos seus editores, "os textos de Evelyn Underhill conseguem, poderosamente, iluminar os cantos escuros da alma em sua busca, através da oração, da do Deus Todo PoderosoMajestade e Mistério."

08 junho 2007

Trindade I - 10 de Junho de 2007

I Reis 17.8-16 (17-24)
Salmo 146
Gálatas 1.11-24
São Lucas 7.11-17

Ressurreição e Fé
Não conseguimos compreender exatamente o que a Ressurreição é; devemos nela viver pela fé. Contudo, o Novo Testamento está cheio de analogias para realidades que somente podemos conhecer pela fé: parábolas sobre a compaixão de Deus, imagens de banquetes que sugerem a qualidade do reino de Deus, metáforas de plantio e colheita para descrever - transformação. O Apocalipse ensina através de imagens e símbolos; ele vem ao nosso encontro como imaginação. Os símbolos nos alcançam sentido e, ao mesmo tempo, preservam o contexto de mistério. São transparentes ao divino. É importante lembrar disto, pois é o que nos libera para imaginar o que a Ressurreição poderia ser, sabendo que a Escritura jamais pode plenamente descrevê-la ou, literalmente, acompanhá-la. Nesta área, como em todas as demais, vivemos por analogia.
A imaginação é especialmente importante quando lidamos com o paradoxo corpo / espírito, pois é ela que abarca a diferença entre matéria e espírito, unindo-os em um ato único de experiência e conhecimento. Ela nos alerta para a poesia que encontramos no mundo material.
Kathleen Fischer, Moving On: A Spiritual Journey for Women of Maturity



Sentimento de Pais

O que é mesmo que faz com que a morte de uma criança seja tão indescritivelmente dolorosa? Sepultei meu pai e foi muito doloroso. Mas nada é como isto. É de se esperar que sepultemos nossos pais; mas não esperamos - não, em nossos dias - sepultar um filho. O sepultamento de uma criança e um horrorosa alteração de expectativa.

Mas é mais que isto. Sinto muito mais, mas não consigo explicar. Uma criança vem ao mundo sem meios de sustento. Imediatamente nós, pais, damos de nós mesmos. Tomamos para nós mesmos o cuidado amoroso de permanecer com a criança... o caminho todo, até que tenha seu próprio futuro, um futuro em poderemos alegrar-nos com seus triunfos e entristecer-nos com suas dificuldades. Há nossos planos, esperanças e medos por ela. O futuro que abracei como meu mesmo foi destruído. Escapou de meus braços. Por vinte e cinco anos eu o guardei, sustentei e encorajei com minhas próprias mãos, ajudando a crescer para que se tornasse um homem por si mesmo. Ele então me escapou e foi perdido.

David Lockwood, Love and Let Go


África do Sul - Março 2007


TEAM (Por Uma Missão Anglicana Efetiva)

Chamamento para a Comunhão Anglicana

De 7 até 14 de Março próximo passado, tendo como hospedeira a Província Anglicana da África do Sul, sob a presidência Arcebispo Njongonkulu Ndungane, tendo ao lado o próprio Arcebispo de Cantuária, a grande maioria das províncias anglicanas do mundo esteve reunida, através de seus representantes e especialmente, por networks como o de Justiça e Paz. O propósito foi o de responder ao chamado do testemunho profético, necessidade de desenvolvimento social e enfrentamento do drama do HIV e AIDS.

Na véspera do final da Consulta o Plenário reunido trabalhou as Recomendações abaixo listadas para a Comunhão como um todo. Uma primeira marca de qualidade foi claramente expressa: com respeito a estes desafios, mais que o vocabulário dos Alvos de Desenvolvimento do Milênio, das Nações Unidas, precisamos falar com nosso próprio vocabulário como Igreja, mesmo que corramos um risco a mais.

1 - Fome e Empobrecimento: Perceber o uso dos alimentos como arma e ferramenta de opressão e alienação. Tratar do problema dos alimentos como fonte de sáude e não a serviço de indicadores econômicos ou políticos. A questão alimentar não deve ainda ser considerada como indicadora de "desenvolvimento" econômico mas como sinal vital de vida sustentável. Buscar a necessidade e ou possibilidade da criação de bancos de sementes.

2 - Educação: O binômio Igreja / Escola. Muito maior atenção para a educação básica, qualificação de professores e disponibilidade de bolsas de estudo.

3 - Igualdade de Gênero: Por seu testemunho a Igreja deve dispor de boas lições para a juventude. A ordenação de mulheres e também sua liderança na vida plena da Igreja são um chamamento a ser ainda melhor respondido.

4 - Redução da Mortalidade Infantil: Atenção muito especial às crianças recém nascidas e não menos no acompanhamento de seus primeiros anos de vida.

5 - Melhoria visível nas condições de acompanhamento e cuidado na maternidade. Nesta área, assim como em muitas outras, já que a Igreja conta com grupos de mulheres, deve contar também com a formação e participação responsável de grupos de homens.

6 - Combate HIV / AIDS. Incluir aí as enfermidades "oportunistas" como a tuberculose e outras. A malária ainda faz parte desta preocupação. A Igreja deve prestar acompanhamento pastoral tanto aos infectados como aos familiares não menos afetados!

7 - Cooperar e educar no sentido da sustentabilidade do Ambiente. Responsabilidade em todos os níveis de vida, local, nacional e planetária.

8 - Construção e fortalecimento de parcerias, das Igrejas umas com as outras e também com NGOs e associações voluntárias de serviços.

9 - Percepção e Redução dos Conflitos não só étnicos mas também na própria população nacional. Descobrir os "refugiados" de classe... da sociedade de cada dia.

10 - Proteção dos Direitos da Criança e Preservação da Vida dos Jovens.


CHAMADOS À AÇÃO

(Estratégias de Ação para todas as Províncias)

1 - Todas as Províncias deverão propor Planos de Ação segundo as preocupações acima listadas. Serão Estratégias de Desenvolvimento para cada uma e para todas as Províncias. Há uma data que precisa ser considerada decisiva: O Plenário decidiu-se por 07/07 de 2007. Temos, pois, um prazo já menor que um mês. O Plano de Ação de cada Província deve propor passos tangíveis e resultados verificáveis!

2 - Empenhar-se, quanto possível, em termos de advocacia e defesa, com as demais Igrejas, NGOs e agências de solidariedade e comunidade.

3 - Monitoração: A Comunhão deverá propor-se um Processo de Avaliação e Revisão dos passos alcançados ou ainda não... Todo este conjunto deve ser encarado somente como um início. Mas todas as iniciativas e ações devem começar no nível local (paroquial - diocesano e provincial), segundo a data limite.

O texto acima resulta das anotações do primeiro esboço feito em Plenário, traduzido pelo representante brasileiro no Peace and Justice Network da Comunhão Anglicana, na tarde de 13 de Março de 2007.

01 junho 2007

Domingo da Santíssima Trindade - 3 de Junho de 2007

Provérbios 8.1-4, 22-31
Salmo 8
Carta aos Romanos 5.1-5
São João 16. 12-15
Na Rotina de Cada Dia
Para os místicos, toda oração e meditação conduzem a uma compreensão e mergulho ainda mais profundos na vida da Trindade, vendo-a refletida no mundo criado, participando da vida comum e cotidiana. Por duas vezes me foi dado perceber esta experiência como num relance. Ambas as oportunidades ocorreram em ocasiões muito improváveis. A primeira, durante uma refeição ao ar livre numa fazenda, em meio as festividades em atenção a uma senhora francesa idosa. Estávamos reunidos quando subitamente, sem qualquer aviso, passou-se à conversa sobre a Trindade de Deus, sua significação e lugar na vida e na fé. A segunda ocasião, aconteceu no campus da Universidade de Manchester. Ao longo da viagem, pela estrada de Oxford, meu companheiro, sacerdote, também inesperadamente falou sobre sua compreensão da Trindade e como ele formara e dirigira seu próprio trabalho pastoral e vida espiritual... Ambas as experiências me alcançaram uma impressão muito forte, percebendo que a Trindade não está inescapavalmente além do horizonte humano, mas toca nosso existir em todos os seus cantos mais distantes.
John Harriot, The Empire of the Heart


Escultura de São Domingos de Silos, 1150
Figuras de Deus, Dominique Ponnau, UNESP
Arte de Paula K.Suzuki
A Força do Mal

Visitei um campo de refugiados chamado Jalazon, na West bank ocupada da Palestina. Aí, nas condições repressivas mais rígidas, perto de 6.000 pessoas tentavam manter alguma vida familiar e comunitária apesar de todas as adversidades. Passamos a tarde visitando uma creche e o centro de acolhida para mulheres. Caminhamos pelas ruas, impressionados pela visão das casas arrazadas pelos gigantescos Caterpillar ou simplesmente lacradas aos seus antigos moradores. Fomos convidados para a residência de uma mulher cujo filho de 13 anos de idade fora morto pelos militares. Éramos dez pessoas, sentadas naquela moradia pobre e desprovida de quase tudo. Mas mesmo aí, o dever da hospitalidade precisava ser observado. Notei as garrafas de limonada sendo passadas através da janela que estava atrás de mim e, em poucos minutos todos nós fomos graciosamente servidos com a bebida refrescante. Bebíamos nossos refrescos em um dia particularmente quente e poeirento quando, subitamente, ouvimos uma assustadora explosão, imediatamente seguida por outra. Um minuto mais tarde, um homem idoso correu para a casa sufocado e soluçando. Foi então que o gás lacrimejante começou a infiltrar-se em nossa peça da casa, fazendo-nos tossir, lacrimejar com olhos ardendo e finalmente correr. Deixamos os copos e buscamos uma outra peça mais no interior da pobre moradia. Mesmo assim, tivemos que correr para fora dela e retornar ao nosso carro, justo quando uma patrulha armada do exército descia a colina em nossa direção. O momento foi confuso. A experiência de hospitalidade e partilha da dor foi destroçado, e as mulheres que nos recebiam se sentiram, ao mesmo tempo, assutadas e constrangidas - em atenção à nós - porque, para elas, a opressão era uma ocorrência regular. Um momento de graça terminava em terror e confusão. Eu o experimentei como um momento literalmente diabólico, um momento em que tudo dasabou. É assim que reconhecemos a força do mal no mundo - simplesmente destruindo tudo.
Kathy Galloway, Getting Personal: Sermons and Meditations

25 maio 2007

Pentecostes - 27 de Maio de 2007

Atos dos Apóstolos 2.1-21
Salmo 104.24-35, 35b
Carta aos Romanos 8.14-17
São João 14.8-17 (25-27)
Nossa Compreensão sobre as Greves
Sejamos honestos, digamos que, fundamentalmente, a posição que adotamos nem é tanto baseada em salários, horários e condições de trabalho mas na verdade fundamental de que os seres humanos devem ser tratados não como coisas, mas como seres humanos, como - templos do Santo Espírito -. Quando Cristo tomou nossa natureza humana, quando Ele se fez homem, dignificou e enobreceu a natureza humana. Disse Ele, - O Reino do Céu está dentre vocês -. Quando os humanos fazem greve, estão seguindo um impulso, por vezes cego, muitas vezes desinformado, mas bom impulso - podemos até dizer, impulso inspirado pelo Santo Espírito. Estão tentando afirmar seus direitos em ser tratados não como escravos, mas como humanos. Estão lutando contra a idéia do trabalho como mercadoria, a ser vendida ou comprada."
Dorothy Day, Selected Writings
The Anglican Digest, Pentecostes, 2007

Deus, o convidado
Se eu perguntar a você.... se ama a Deus, você certamente me responderá, com inteira e firme confiança, que sim. Mas ... - Se alguém me amar, guardará minha palavra -. A prova do amor é a manifestação em ações. É por isso que São João diz em sua I Carta que, - alguém que diga, amo a Deus, mas não observa seus mandamentos, é mentiroso.
... Amigos, consideremos a grandeza desta festa solene que comemora a visista de Deus como convidado em nossos corações! Se um amigo rico e influente viesse à sua casa, você prontamente colocaria tudo em ordem para que nada ofendesse os olhos do amigo ao chegar. Todos nós, pois, que preparamos nossas moradias interiores para Deus, limpemos de casa, todos erros que para dentro temos trazido.
São Gregório, o Grande, Homilia 30 em Be Friends with God


IAET E SETEK

A colaboração entre o SETEK como Seminário Provincial no sul do país alcança mais um espaço de solidariedade. Por convite de D. Hiroshi Ito, Bispo Diocesano, o Deão do SETEK teve a oportunidade de trabalhar com os alunos do IAET, na data de 19 de Maio, o tema da Teologia Eucarística. Não é a primeira vez em que professores do SETEK contribuem, de uma ou outra forma para a Educação Teológica na vida Diocesana/Provincial e, contamos como certo, não será última. Uma proximidade deste gênero edifica tanto o SETEK como os processos diocesanos de formação.


Eucaristia de abertura das aulas do dia,
Capela do Centro Diocesano Dom S. Takatsu


Estudantes do IAET - 19 de Maio de 2007


Santa Eucaristia - Paróquia de São João, Pinheiros, SP


Revd. Yuba e Dom Prado,
estudantes do Seminário em São Paulo, ainda no início dos anos 60

17 maio 2007

Páscoa VII - 20 de Maio de 2007

Atos dos Apóstolos 16.16-34
Salmo 97
Apocalipse 22.12-14, 16-17, 20-21
São João 17.20-26

Que espécie de reino será?
Será um reino onde, segundo a oração de Jesus, o nome de Deus é sempre santificado, sua vontade é feita na terra, os seres humanos terão tudo em abundância, todo mal será perdoado, e todo pecado será vencido.
Será um reino segundo as promessas de Jesus, onde os pobres, os famintos, os que choram e são desprezados... finalmente não mais estarão abandonados e distantes; onde a dor, o sofrimento e a morte terão um fim.
Será um reino que não pode ser descrito, mas só se tornará conhecido por metáforas: como nova aliança, semente que germina, colheita madura, grande banquete, festa real.
Será portanto um reino - justamente como os profetas anunciaram - de retidão absoluta, de liberdade inquebrantável, de amor persistente, de reconciliação universal, de paz sempiterna. Neste sentido, será tempo da salvação, da plenitude, da consumação, da presença de Deus: o futuro absoluto.
Hans Küng, On Being a Christian


O Beijo de Judas, de Giotto - detalhe
O Que é Meu é Teu

A única forma sob a qual mundo reconhecerá a missão de Jesus é a da unidade de sua Igreja. Mas a unidade da Igreja deve traduzir-se em vida de comunidade real. Jesus falou da unidade absoluta entre o Pai e Ele próprio. Sua oração por nós é a de que devemos ser simplesmente unidos. (São João17.21-22). Poderia ainda existir entre nós - teu e meu? Não. O que é meu é teu e o que é teu é meu. No Espírito da Igreja, tudo o que temos pertence a todos. Primeiro, e acima de tudo, temos comunidade nos valores mais profundos da vida comum. Mas partilhando dos tesouros do Espírito, que são os maiores, como podemos recusar o mesmo nas coisas menores?
Eberhard Arnold, God's Revolution: Justice, Community and the Kingdom

11 maio 2007

Páscoa VI - Domingo de Rogações - 13 de Maio de 2007

Atos 16.9-15
Salmo 67
Apocalipse 21.1; 21:22-22-5
São João 5.1-9
Um lugar para você
Na noite passada havia trovões e relâmpagos: hoje tudo está bonito. As folhas da árvore no cemitério são pequenas e as flores cobrem os ramos como com laços verdes. Ouço a roda do engenho trabalhando: só isso, e os pássaros cantando.
Amanhã é a Ascensão, meu festival favorito. Em nenhum outro momento do ano consigo ouvir as antífonas do Dia da Ascensão soando em meus ouvidos e elas me enchem de luz e paz. "Vou preparar um lugar para vocês".
É a festa do silêncio e da solitude interior, quando somos erguidos para viver no céu com Jesus; pois Ele nos toma, após ter vivido por um pouco aqui conosco.
Esta é a graça do Dia da Ascensão: ser levantado ao céu de nossas almas, o ponto de contato imediato com Deus. Para descansar neste cume quieto, na escuridão ao redor de Deus. Aí viver através de todos as tentações e todas as adversidades com - o Deus tranquilo que faz tranquilas todas as coisas.
Seja Deus comigo neste dia e para sempre.
Thomas Merton, The Sign of Jonas
A Ascensão, Jacques de Voragine, 1370
Figuras de Deus - Dominique Ponnau - UNESP


GRAÇA

A Graça nos surpreende quando estamos em grande dor ou fatiga. Ela nos envolve quando andamos pelo vale escuro da falta de sentido e da vida vazia. Ela nos encontra quando sentimos que nossa separação é maior que o usual, seja porque violamos uma outra vida, uma vida a qual amávamos, ou da qual estávamos alheios. Ela nos surpreende quando nos desgostamos conosco mesmos, nossa indiferença, nossa fraqueza, nossa hostilidade, e quando nossa falta de direção ou compostura se tornaram intoleráveis para nós mesmos. Ela nos vem quando, ano após ano, o longo anseio de perfeição pela vida não aparece, quando a antiga compulsão reina em nós como durante décadas, quando o desespero destroi toda alegria e coragem. Por vezes, nestes momentos, uma onda de luz irrompe na escuridão e é como se uma voz nos dissesse: você é aceito. Vocâ é aceito, aceito por algo que é maior que você e, cujo nome você desconhece. Não pergunte pelo nome agora; talvez você o encontre mais tarde. Não tente coisa alguma agora; talvez mais tarde você faça bem mais. Não procure por coisa alguma agora; não planeje coisa alguma. Simplesmente aceite que você é aceito!
Se isto acontece conosco, experimentamos a graça. Após tal experiência podemos não ser melhores que antes, ou mesmo crer mais que no passado. Mas tudo é transformado. Naquele momento, a graça conquista o pecado, e a reconciliação transpõe o abismo da alienação. Nada nos é exigido desta experiência, nenhuma proposição religiosa, moral ou intelectual, nada.. a não ser aceitação.
Paul Tillich, The Shaking of the Foundations

03 maio 2007

Páscoa V - 6 de Maio de 2007

Atos 11.1-18
Salmo 148
Apocalipse 21.1-6
São João 13.31-35


Cafarnaum - visão geral da Sinagoga e assentos laterais
Franciscan Printing Press - Jerusalem
Amando as pessoas como elas são
Quando nossos corações se libertam de julgar as pessoas meramente segundo seus dons naturais, não mais somos cativos de encantos externos e mutáveis. Antes, nos tornamos livres para amar as pessoas tais quais são, podendo entrar mais facilmente no centro de suas personalidades, sua verdadeira bondade.
Quando amamos desta forma, nosso afeto é altruista e agrada a Deus.
Quanto mais esta espécie de amor crescer, mais crescerá também nosso amor a Deus; e quanto mais profundo for nosso amor por Ele, mais amaremos também nosso próximo, já que o princípio para ambos é o mesmo.
Um grande benefício advindo desta forma de amar é que ela promove grandeza de coração, o que é necessário no serviço de Deus, já que é liberdade interior. Com ela, as tentações contra o amor são facilmente vencidas, tornando-nos capazes de perverar pacificamente em tudo, e em nós as virtudes crescerão e florescerão.
São João da Cruz, The Ascent of Mount Carmel


Os peregrinos de Emaús, Zurbarán 1639
Figuras de Deus - Dominque Ponnau - UNESP

MISTÉRIO

O sentido das coisas, e seu propósito,
estão agora em parte ocultos
mas no final serão aclarados.
A escolha é entre
o Mistério e o absurdo.
Abraçar o Mistério
é descobrir o real.
É caminhar na direção da luz,
entrever a estrela da madrugada, avistar
de tempos em tempos
o que é verdadeiramente real
não passa de um piscar da luz
através da nuvem do desconhecido,
um tênue raio de luz
mensageiro do sol, escondido do olhar.
Vê-se a luz mas não o sol.
Olhando, no entanto, mais de perto,
vemos mais sentido
na escuridão que nos cerca.
Os olhos começarão a discernir
o aspecto das coisas e das pessoas ao redor.
Começaremos e nelas ver
a presença dAquele
que nos alcança sentido e propósito,
e veremos também que é Ele
a explicação de tudo.
Arcebispo Basil Hume, The Mystery of the Incarnation

25 abril 2007

Páscoa IV - 29 de Abril de 2007

Atos 9. 36-43
Salmo 23
Apocalipse 7.9-17
São João 10.22-30
A Esperança acorda a Vida
Quando a esperança acorda, toda uma vida acorda com ela. Chega-se plenamente à vida. Parece mesmo que nem se havia vivido até então. Acordamos para uma vida que é eterna em seu prospecto, a vida que abre diante de nós o caminho todo da morte e mais além, uma vida que parece resistir à morte e sobreviver. Onde quer que a esperança ressurja, a vida ressurge também. Quando entramos na aventura espiritual, a esperança aparece onde antes não havia esperança alguma, onde somente havia uma existência de - desespero quieto - e a vida surge aí também, a vida da aventura espiritual, com o sentido de se estar em uma jornada no tempo. Há algo pelo qual viver onde antes nada havia. Contudo, isso se mostra não ser o bastante. O coração de alguém pode ser aceso e ainda persistir um resíduo de trevas, intocado. O resto que está escuro somente é alcançado quando se descobre uma vida nova e desconhecida em outra pessoa. Quando um encontra o outro, uma nova esperança aparece e parece afirmar-se como ter alguém por quem viver... mas esta esperança é desapontada. O canto escuro no coração foi aquecido mas não aceso - a ponto de fogo - a partir do qual vai queimar por si mesmo. Só se alcança o - ponto de combustão - quando morremos acordados - quando descobrimos uma vida que é capaz de viver através da morte e da perda. Quando a esperança de viver através mesmo da morte surge, parece a vida que sempre se esperou, pois esta é a vida de que se fala nas palavras da promessa - quem vive e crê em mim jamais morrerá eternamente.
John S, Dunne, The Reasons of the Heart
Piero della Francesca, Ressurreição, cerca de 1458,
Sansepolcro, Museu Cívico,
Figuras de Deus - Dominique Ponnau - UNESP
Não gerentes... somente!
Aconteceu ter encontrado na rua em Nova Iorque, com o rabino Dr. Abraão Heschel, proeminente rabino judeu. Segui com ele até em casa e passamos algumas horas juntos. Ele pediu desculpas por seu mau humor naquele dia - uma espécie de peso no coração que parecia não conseguir dissipar.

"O que o fez tão triste, rabino?" Perguntei.

"Minha oração da manhã", respondeu ele.

"Sobre o que o Sr. estava rezando?' Indaguei outra vez.

"O Concílio da sua Igreja", disse ele.

"Porque nosso Concílio o preocupa tanto?"


E o rabino respondeu com outra pergunta: "... quantos dos seus bispos ou outros clérigos, reunidos em Concílio, são mesmo contemplativos?" Então, eu é que fiquei triste!

O rabino estava mais que certo ao vincular o sucesso do Concílio não à habilidade gerencial de bispos ou na inteligência dos teólogos, mas na questão de se saber se os pastores do rebanho eram mesmo ou não... homens de Cristo, governados pelos dons do Santo Espírito, em contato direto com o Deus Vivo, como ele próprio rabino, buscava estar.

William McNamara, The Human Adventure: The Art of Contemplative Living