29 março 2009

Quaresma V • 29 de Março de 2009

Leituras do Domingo
Profecia de Jeremias 31.31-34
Carta aos Hebreus 5.7-9.
Evangelho de São João 12.20-3


Confissão, nem opcional nem compulsória!


Não há na Igreja Anglicana uma norma no sentido de que o sacerdote negue a comunhão a alguém que não tenha buscado a Confissão. Neste sentido, a Confissão não é “compulsória”. Mas o que isto significa? Significa que a Igreja Anglicana, certa ou equivocadamente, colocou a responsabilidade de receber o sacramento da Penitência, quando necessário, sobre a pessoa, restringindo-se de legislar sobre a questão. A remoção da responsabilidade de uma pessoa não justifica que o pároco se omita no ensino ao seu povo, definida e claramente, sobre a necessidade do sacramento. Em verdade, isto agrega uma responsabilidade ainda maior sobre o sacerdote. Ele deve ser ainda muito mais zeloso sobre este ensino para que o povo da Igreja não busque o altar de Deus pelo caminho fácil. No caso de alguém em risco de vida, o clérigo deverá ser ainda mais prestativo e amoroso, de modo que o enfermo se sinta tocado pela possibilidade de uma confissão especial de seus pecados. O sacerdote falha seriamente, com Deus e seu povo, ao se omitir em seus deveres, na necessidade da confissão. No trabalho comum da vida paroquial o normal é que o sacerdote cumpra regularmente com o dever de ensinar e explicar pacientemente ao seu povo, por homilias, boletins, reuniões de pequenos grupos, pela visitação pastoral e outros meios apropriados, a importância de se receber este sacramento. Se a prática da Confissão perdeu-se por razões históricas da eclesiologia da IEAB, ou se empobreceu ao longo de décadas e, particularmente em nossos dias, a responsabilidade é do processo histórico mesmo e também das pessoas, se é que o clérigo, devidamente instruído, agiu como dele é de se esperar. Deseduca gravemente a Igreja de Deus dar a entender que a Confissão pode ser “opcional” ou “compulsória”. Uma vez o sacerdote “ensine” que existem dois meios para se receber a absolvição, um deles fácil e o outro difícil, pode contar como certo que não será certamente procurado para o ministério da confissão. Como humanos, somos frágeis e sempre tenderemos a “racionalizar” nossos desejos, escolhendo sempre o caminho mais fácil. “Levantar-me-ei, irei a meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti: já não sou digno de ser chamado teu filho.” São Lucas 15.18,19

22 março 2009

Quaresma IV • 22 de Março de 2009

Leituras do Domingo

II Crônicas 36.14-16, 19-23
Carta aos Efésios 2.4-10
Evangelho de São João 3.14-21


Tempo de Confissão

“Se dissermos que não cometemos pecado, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós; se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para no-los perdoar, e para nos purificar de toda injustiça.”
I Carta de São João 1.8-9

A confissão é parte inarredável da vida de piedade pessoal. Sem ela, na verdade não existimos. Sem ela, não experimentamos também arrependimento de verdade. Dentre todos os sacramentos que a Igreja nos disponibiliza, a confissão sacramental é a mais indigentemente usada e talvez a mais mal compreendida. Há quem pense que não necessitamos da confissão sacramental porque já dispomos da Confissão Geral rezada sempre que participamos da Eucaristia. Pois aí é que está o problema. Ela é geral! Em tempos mais antigos a confissão era aberta e pública. O argumento era, e em alguns casos continua a ser – posso me confessar diretamente a Deus, não necessito nem de sacerdote nem de audiência pública. A confissão a Deus, em segredo, não é confissão de fato. É, sim, reconhecimento diante de Deus de que conhecemos o que Ele já conhece! A confissão, por definição é aberta e pública. Não sendo assim não é confissão. Quando as pessoas se decidiam pela experiência do arrependimento como forma de se preparar para a vinda de Jesus segundo a pregação de São João Batista, São Marcos diz que elas “confessavam seus pecados.” (São Marcos 1.5) Elas não diziam a Deus em segredo o que Ele já sabia! Elas, em verdade, confessavam seus males a todos os que se achavam nas margens do Jordão. Semelhantemente, São Tiago também recomenda que os cristãos “confessem seus pecados uns aos outros”. (São Tiago 5.16) Não se trata de uma sugestão do apóstolo São Tiago mas de um mandamento. Os cristãos devem revelar suas fraquezas uns aos outros para que assim sejam curados. A Confissão Sacramental é um sacramento de cura: cura as almas dos pecados que as faz enfermas. Se a confissão é, por definição, reconhecimento de pecados, de forma aberta e pública, por que então a Igreja direciona os penitentes a buscarem um sacerdote para a confissão privada? Os sacerdotes não têm poder para perdoar pecados; somente Deus pode fazer isto. Mas o papel do sacerdote é testemunhar a confissão e prescrever, se necessário, a penitência apropriada. Mais importante ainda, o sacerdote está presente para assegurar o perdão de Deus através da oração da Absolvição. Ela é pública no sentido de que o sacerdote representa a com unidade da fé, como pastor do rebanho, além da presença sacramental de Cristo mesmo.O sacerdócio sacramental é participação no sacerdócio de Cristo. Assim, a Quaresma é tempo de confissão. Se para você, esta for uma primeira experiência, recomenda-se que procure por ajuda na preparação apropriada. Há material para leitura e instrução. “Filho, filha, Cristo está aqui invisivelmente para ouvir tua confissão... eu sou somente uma testemunha, testemunhando diante dEle tudo o que vais desistir... dentre o que venha ser teu maior pecado. Coragem, portanto... a menos que venhas ao médico e aceites retornar sem a esperada cura.” Esta é só uma das muitas exortações ao penitente existente nos diferentes Ritos da Confissão.

15 março 2009

Quaresma III • 15 de Março de 2009

Leituras do Domingo
Êxodo 20.1-17
I Carta aos Coríntios 1.22-25
Evangelho de São João 2.13- 25.



A “Glorificação” de Cristo



“Eu mostrei a tua glória ao mundo e terminei o trabalho que me deste para fazer.Meu Pai! Agora dá-me glória na tua presença, a mesma glória que eu tinha contigo antes de existir o mundo.”
São João 17.1-5


Para a maioria de nós, a crucifixão – uma forma particularmente cruel de execução – pode ser descrita sob muitas formas menos como – gloriosa! Para os judeus, a morte na cruz significava que o condenado era na verdade um maldito (Deuteronômio 21.23). Para os romanos, a prática permitia eliminar qualquer vestígio de dignidade de quem fosse crucificado. A vítima, pendurada numa cruz, durante o calor do dia todo, fazia com que os passantes amontoassem ainda mais maldades sobre o condenado. Não é surpresa que o hino de São Paulo à humildade de Cristo diga: “Foi humilhado, e andou nos caminhos da obediência até a morte – e morte de cruz.” (Filipenses 2.8) No entanto, nesta passagem do Evangelho, é – a glorificação – de Cristo que o texto refere. Jesus falara sobre ela antes mesmo do seu evento: “Chegou a hora de ser glorificado o Filho do Homem” (São João 12.23) Aí, poucas horas antes do Gólgota, Ele reza para que sua morte fosse o meio pelo qual o Pai o – glorificaria – e que o Filho então glorificasse o Pai: “Pai, chegou a hora. Glorifica teu Filho, para que ele te glorifique.” (São João 17.2) Como entender tudo isso? Sua resposta diz que somente por este caminho de dor Elepoderia exercer a divina autoridade de oferecer vida eterna: “... tens dado ao Filho autoridade sobre todos os homens, para que ele dê a vida eterna aos que lhe deste.” (S. João 17.2) O Pai será glorificado ao se completar o trabalho para o qual Jesus foi enviado, a salvação do mundo. Talvez, o clamor triunfal na hora da cruz: “Está consumado” (19.30) afirmava que a tarefa se cumprira. A vida eterna é aqui compreendida em termos muito simples. Consiste em conhecer Deus e conhecer o Messias a quem Ele enviou. (17.3). Devemos rezar mais por conhecer ao Pai e ao Filho, bem mais do que simplesmente estar informados a respeito deles.

09 março 2009

IV Curso de Verão


08 março 2009

8 de Março de 2009 • Quaresma II

Leituras do Domingo
Gênesis 22.1-2, 9-13, 15-1
Carta aos Romanos 8.31-34
Evangelho de São Marcos 9.2-10
A Alegria que Permanece

“...afirmo que vocês vão chorar e ficar tristes, mas a gente do mundo ficará alegre. Sim, vocês ficarão tristes, mas essa tristeza se transformará em alegria... assim acontece com vocês agora: agora estão tristes. Mas eu verei vocêsnovamente. Então ficarão cheios de alegria, e ninguém poderá tira-la de vocês.”
Evangelho de São João 16.20-24



O texto de São João refere aqui uma forma de alegria muito especial. É a alegria que pode ter raízes mesmo na dor. A imagem do nascimento humano é vívida. Não sabemos se as mães de hoje esquecem a dor assim tão rapidamente! O centro da ilustração é, no entanto, ainda verdadeiro: após o parto a criança recém nascida representa grande maravilha e porta consigo a alegria que deixa no passado a dor momentânea. A dor passa e a alegria permanece. Isto é o que seria também vivido pelos discípulos, Jesus os assegura. Neste momento mesmo estão assustados e ansiosos. Trevas e morte estão logo adiante, seguidas de luto. Mas o Senhor sabe que os encontrará novamente, no dia glorioso da Páscoa. A alegria que conhecerão então será sem fim. “Quando eles viram o Senhor, ficaram muito alegres.” S. João 20.20 Foi mesmo assim, apesar das “provas” da identidade que o Senhor lhes mostrou. Eram as feridas de sua morte. Uma vez mais o Senhor urge com eles a que orem em Seu nome. E acrescenta um incentivo. Pela súplica e bênção que receberão, sua alegria será completa. Através dos tempos e circunstâncias de dor, a alegria de Deus procura por nós. Primeiro vem a Cruz. Então, a Ressurreição. Assim como a alegria dos discípulos nasceria desde a dor, também a paz viria na perseguição. Somente aqueles que conhecem a dor conseguem experimentar a alegria mais profunda; Só os que sofrem ansiedade e medo podem reconhecer a bênção da paz. Nossa paz e alegria são verdadeiras em Cristo, e no Pai em quem Ele é um. Esta, a meditação para cogitar em silêncio, começando a segunda semana da Quaresma.

01 março 2009

1º de Março de 2009 • Quaresma I

Leituras do Domingo
Gênesis 9.8-15
I Carta de São Pedro 3.18-22
São Marcos 1.12-15


As limitações e o caminho do sofrimento

Conhecemos todos um sem número de deficiências humanas que abalam a tão instável compreensão de “saúde”. Sabemos também de admiráveis casos de coragem moral e força de vontade em que pessoas, passando por grande sofrimento ou perdas de partes seu próprio corpo ou de algumas de suas capacidades, afirmam um testemunho de bravura e confiança na vida que por momentos nos elevam acima de nós mesmos. Há também a lembrança de rostos, organizações e legislação que mais e mais tentam dar de si como reconhecimento de uma dívida social para com os que, embora humanamente “deficientes”, são tanto ou até mais “capazes” que os assim tidos como “saudáveis”.
Só os que não amam escapam do sofrimento! Trata-se de um discernimento discutível mas aponta numa direção sensata. O sofrimento, e o luto como extremo mais doloroso principalmente, são o preço que precisamos todos pagar, eventualmente, pelo amor que assegura a dignidade do viver.
Para quase todos nós, sofrimento e morte são lembranças que preferimos evitar. “Não, muito obrigado!” Convivemos diariamente com a visão de pessoas que, por muitas e diferentes razões, sofrem tanto ou mais que nós. De um modo geral, parece, preferimos “fazer de conta” que a dor e o sofrimento dos outros não é conosco. A “solidariedade” ou “proximidade” sérias podem como que ser mesmo contagiantes. Até quando evidenciamos algum sinal “social” de reconhecimento e respeito, nos deixamos levar logo, logo, pelo silêncio e indiferença.
Talvez sejamos assim, nem tanto por crueldade mas por “ignorância”. Em tempos passados, quando a arte da medicina não dispunha do “arsenal” de hoje, e não conseguia manter muito longe de si os braços das deficiências várias, e da morte, as pessoas pareciam saber lidar mais humanamente com a dor e as limitações. Talvez a noção de respeito fosse diferente! Nossas debilidades de saúde, de qualquer ordem, nas limitações e no sofrimento especialmente, não podem “andar ligeiro!”. Esta é uma lição que nossa sociedade e cultura precisam aprender ainda. Precisaremos dela seja para a solidariedade com outros seja para, mais dia menos dia, nossa própria ajuda.
A vida é difícil, o sofrimento, as limitações da idade e a morte mesma são suas companheiras. São nossas acompanhantes! Levar a sério estas coisas é uma questão de maturidade e sabedoria. Todos temos seres amados a quem gostaríamos de ajudar, proteger, cuidar e aliviar. Todos tememos, por amor, os riscos que ameaçam aqueles a quem amamos. Para quem vive pela fé em Cristo, “no meio da vida estamos na morte!” Este é um padrão que mesmo nossos padrinhos já reconheciam durante nosso batismo. Este é o padrão no qual, cada domingo, somos participantes através dos santos Mistérios do Pão e do Vinho. Agora mesmo, neste tempo santo da Quaresma, talvez mais que em qualquer outro momento do Ano Cristão, somos recordados de que “somos pó e ao pó voltaremos.” Nada há de morbidez no reconhecimento e convívio com este cenário. Não somos “impecáveis” e, sob muitos aspectos, somos todos defectivos. Na alma, no coração, na constituição física e nas circunstâncias da vida. Cada novo dia nos leva mais para perto da casa do Pai. Crescemos na estatura da Graça e fisicamente nos esforçamos por uma vida mais saudável. Mas a curva biológica não muda seu perfil. O curso regular da vida, em seu ritmo “normal” sempre nos confronta com momentos de limitação, desapontamento e incompreensão.
Como adultos, não podemos evitar o confronto maduro com impactos que são, ou serão, inescapáveis e muito pessoais. Entender melhor o impacto da devastação, ou nosso próprio convívio diário com a “roupagem” com que o Criador nos “revestiu”, significa reconhecer também os sentimentos estranhos, amargos e indesejados... como “sintomas” de nossa experiência como criaturas. Na expressão de G. B. Shaw, “As mágoas são a vida mesmo nos educando”.
Aprender a solidariedade e participação nas nossas limitações mútuas é certamente uma grande medicina para aclarar o que, mesmo não percebendo, é para nosso próximo, a tristeza em busca de iluminação. Não se trata de “consolar” a dor ou de minimizá-la, como é usual e mais fácil! A nós compete, como seres humanos, alcançar e encontrar aos que sofrem para que sejam restaurados. Todos precisamos de ajuda e encorajamento, aqui ou ali. Reconhecemos, na limitação dos outros, momentâneas ou não, as dores, o medo, a raiva, a culpa, a frustração, a solidão e, tantas vezes, o sentimento de abandono que os esmaga. Este senso de cuidado e responsabilidade tanto pode ser interpessoal quanto deve ser também, quem sabe, praticado em “pequenos grupos”. Os cristãos e as igrejas deveriam saber disso! Mas não só! Há muitas outras formas humanas de associação humana que têm semelhante dever de compaixão e compromisso.
Nas limitações e adversidade da vida de cada dia, estamos todos no mesmo barco. Ou, nas palavras do Salmo 23, andamos pelo vale da sombra... Quaisquer que sejam as nossas circunstâncias, prevalece sempre a consolação do Pai. Ou, como o C. S. Lewis, teólogo Anglicano tão bem conhecido por seus textos e experiência de vida ao lado da esposa enferma Joy, mais tarde escreveu: “...quanta felicidade, e mesmo contentamento tivemos juntos depois que toda esperança se foi. Como fomos longe, tranqüilos, nutrindo-nos mutuamente naquela que foi a última noite.” (C.S. Lewis, A Grief Observed.)

D. Luiz O. P. Prado

22 fevereiro 2009

22 de fevereiro de 2009 • Epifania VII - Domingo da Quinquagésima

Leituras dom Domingo
Profecia de Isaías 43.18-19, 21-22, 24-25
II Carta aos Coríntios 1.18.22
Evangelho de São Marcos 2.1-12

“Eis que vou fazer uma coisa nova...”

Profecia de Isaías 43.19

O Senhor promete aos cativos no exílio que... “fará uma coisa nova...ela já vem despontando: não a percebeis?” Deus está preparado para virar de pernas para o ar o mundo de toda gente, abrindo um caminho em meio ao deserto, fazendo nascer rios na aridez. O profeta Isaías proclama o que Deus faz sempre em nossas vidas. Mas antes que tudo isto aconteça, diz o Senhor... “Não fiqueis a lembrar coisas passadas, não vos preocupeis com acontecimentos antigos.” Antes que o que é novo ocorra e o percebamos, nossas velhas preocupações e antigas cegueiras devem ser deixadas para trás. Velhos rancores e culpas, antigos afetos talvez e esperanças (ilusões?) equivocadas...As coisas antigas podem se transformar em certezas, virtudes e convicções. Agarrar-nos cegamente a elas, ou por muito tempo, pode cegar-nos ao que Deus está de fato fazendo acontecer como novidade em nossas vidas.

George Herbert (1593-1633) – Sacerdote, Poeta e Teólogo
Nascido de família aristocrática em Pembroke, George Herbert entrou em Cambridge em 1614, tornando-se nome muito especial no Trinity College. Ainda com 25 anos tornou-se orador da Universidade e Membro
do Parlamento, aparentemente destinado a uma vida na corte mesma. Para surpresa de todos, escolheu ser ordenado e, após passar algum tempo com seu amigo Nicholas Ferrar na comunidade de Little Gidding, foi feito diácono em 1626. Casou em 1629 e foi ordenado sacerdote em 1630, dedicando-se ao cuidado de seu povo na paróquia de Bemerton, perto de Salisbury, onde passou o resto de uma vida muito breve. Escreveu bastante e seus hinos ainda são bem populares dentre os eclesianos de fala inglesa. Seu tratado, The Country Parson, sobre a vida sacerdotal, e sua poesia, especialmente O Templo, deram a Herbert um lugar ímpar na literatura inglesa. Jamais descuidou do cuidado pastoral de seu povo em Bemerton e incentivou a presença dos eclesianos na prática dos Ofícios Diários, fazendo ressoar as palavras de seu hino, - “Sete dias inteiros e
não um só em sete... eu te louvarei.” George Herbert morreu no dia 27 de Fevereiro de 1633, aos 40 anos de idade.

14 fevereiro 2009

15 de Fevereiro de 2009 - Epifania VI – Domingo da Sexagésima

Leituras

Levítico 13.1-2, 45-46
Salmo 42
I Coríntios 10. 31—11.1
São Marcos 1.40-45


A Encarnação


A força e gênio da tradição espiritual Anglicana se enraízam na Encarnação. A tradição espiritual Anglicana recebe seu poder e efetividade de uma visão da Encarnação que é “caseira”, regular e mundana. O peso do testemunho Anglicano repousa no poder da comunhão diária em comunicar o que é Santo.
No centro desta tradição espiritual está a percepção de que a vida propriamente vivida é devocional por natureza. A oração é o anseio humano suscitado pelo Santo Espírito em unir-se ao propósito de Deus. Assim, a vida vivida devocionalmente e intencionalmente, com a atenção voltada à vontade Deus, nos molda em caminhos enraizados na existência diária regular. Através dos eventos diários Deus nos capacita a participar no efeito cósmico da Encarnação. Isso implica também em que oramos não para mudar quem Deus é, mas para abrir-nos às mudanças que Deus tem em mente para nós todos. A implicação desta perspectiva é imensa em nossa busca pela percepção da ação de Deus no mundo e nas nossas vidas. Não necessitamos seguir caminho esotérico algum de iluminação. Nossa peregrinação exige atenção séria aos encontros e eventos diários. Uma das formas de se cultivar uma sensibilidade apropriada à atividade de Deus na realidade de nossas vidas está em devotar-nos a nós mesmos tempos regulares de oração, meditação e adoração; assim, o curso diário aparentemente mundano de viver será uma continuada oração oferecida a Deus, que nos criou, redimiu e sustenta.
Para os Anglicanos, os dois ofertórios mais compreensivos alcançando o substrato para esta atividade divina são os Ofícios da Oração Matutina e Vespertina, alicerçados ma Santa Eucaristia. De forma sutil e nem sempre compreensível, o comprometimento regular com estes Ofícios e a Eucaristia abrem espaço em nossos corações e nossas vidas para um encontro com o Santo. O tempo empregado em comunhão regular com os Ofícios Diários e na Eucaristia provém o substrato que vai ao mais fundo de nossa vida espiritual, despertando em nós a fome por intimidade que nossa natureza feita à imagem de Deus sempre exige, provendo assim o contexto para comprometimento e a profundidade ainda maior com Aquele que busca por nós.
Outras tradições cristãs também tomam e utilizam estes dois meios de encontro com a santidade para nutrir suas expressões peculiares de espiritualidade. Nós todos partilhamos discernimentos e materiais, sem falar no depósito vital e vivificante da Santa Escritura. Todas as tradições eclesiais podem aprender lições inestimáveis umas das outras a respeito disto que é tão antigo e tão desafiador, a peregrinação chamada de Vida Cristã. Como Anglicanos temos um dom distinto para contribuir para com a vida da família cristã inteira, sem qualquer pretensão de dominação, algo enraizado em nossa própria história e experiência.


William Willoughby, The Anglican Digest

08 fevereiro 2009

8 de Fevereiro de 2009 • Epifania V ou Septuagésima - Terceiro domingo antes da Quaresma

O Cristão na Epifania

Para o cristão há sempre como que um vazio, no ano litúrgico, entre os pontos clímax da Natividade do Senhor e a Quarta-feira de Cinzas que nos conduz até a Páscoa e Ressurreição de Jesus. Olhando para trás, o Advento nos aponta para uma espera e alerta. Mas qual é mesmo o tema da Epifania? O que a Epifania, já coincidindo com a pré-Quaresma (domingo da Septuagésima) nos chama a viver? Creio que a palavra chave para a Epifania é brilho. O símbolo tradicional da Epifania é o da estrela conduzindo os sábios à manifestação da Divindade. Todos os temas da quadra de Epifania ecoam este cenário. Mas como fazer o tema do brilho ser real em nossas vidas, mesmo na luminosidade e calor do Verão? Como cristãos, cremos que nossas vidas mostram Deus aos outros e, quanto mais nos modelamos em Jesus, melhor! Na linguagem de São Paulo, nossas vidas refletem a glória já mostrada na vida e mensagem de nosso senhor Jesus Cristo! A forma como podemos “mostrar” Deus aos outros é, em primeiro lugar, vivendo a comunhão verdadeira com
Aquele a quem Jesus chamou de Pai, chamando-o de nosso Pai também. Assim como Jesus, precisamos da disciplina obediente de reservar um tempo quieto, em silêncio, em contemplação, cada dia!
Na medida em que aprendermos assim, também ganharemos a bênção de ouvir ao Pai, tanto no silêncio quanto como na Escritura e também na Liturgia da Santa Igreja! Mas nosso chamamento não se encerra na contemplação de Deus em nossas vidas. Jesus nos ensina a amar ao próximo como a Deus mesmo. Nosso “brilho” não acontece na escuridão de um vazio. Trata-se de um brilho de dedicação e de vontade intencional. Precisamos aprender a ouvir o próximo tal como ouvimos a Deus. Só assim nosso “brilho” poderá alcançar os cantos escuros das vidas dos outros. Esta é a parte mais difícil pois precisamos aprender a enfrentar nossas mentiras, falsidades, ilusões e também distrações. As nossas e as de nosso próximo... até alcançar a própria realidade mais profunda. Isto é muito difícil.
Preferimos crer em falsidades fáceis. Preferimos a fala da TV ou dos governantes. Tudo isto é mais fácil que enfrentar a realidade! Preferimos ilusões mais “macias”. É como já disse alguém, “a humanidade não consegue enfrentar a realidade”. Encarar a realidade e o Deus da realidade pode nos levar à mudança e ao desconforto. Há, no entanto, sinais de muitas pessoas já “sacodem o pó”, permitindo que um pouco mais de luz as aclare. Rezemos por brilhar a luz do Pai na Epifania e na Quaresma que se aproxima.

31 janeiro 2009

1º de Fevereiro de 2009 • Epifania IV

A Epifania, o Bispo Andrewes e nós todos.



“Deus avisou em um sonho os visitantes do Oriente para não voltarem aonde estava Herodes... eles voltaram para a sua terra por outro caminho.”
São Mateus 2.12



Na festa do Natal de 1622, o Bispo Lancelot Andrewes suscitou um discernimento novo a respeito da jornada dos Magos. Sugeria então que história antiga dos Magos é uma parábola da conversão dos seres humanos; uma parábola da conversão de todos nós na peregrinação Cristo. Era a viagem através de um deserto inóspito, com camelos recalcitrantes e guias de viagem que não mereciam toda confiança, sempre através de vilarejos e cidades muitas vezes hostis, além da impressão recorrente de que tudo parecia ser loucura. Mas era a viagem estranha e arriscada na direção de um mundo novo e diferente. Ao final da viagem um paradoxo: nascimento e morte. O nascimento de Cristo e nossa morte. A morte de Cristo e o nosso nascimento. São paradoxos terríveis que estão bem no centro da vida e da fé cristãs. Vivendo, morremos e, morrendo, vivemos. Nascimento e morte são os dois lados de toda transformação e a Epifania tem a ver com transformação.
O Filho de Deus se manifesta. “Portanto, todos nós, com o rosto descoberto,refletimos como um espelho a glória do Senhor. Aquela glória vem do Senhor, que é o Espírito. Ela nos torna parecidos com o Senhor, e assim a nossa glória cada vez fica maior.” II Cor. 3.18. “Parecidos com o Senhor” ou, transformados pela adoração!
Não mais conformados com este mundo mas “transformados pela renovação de nossa mente”. Esta renovação é um contínuo morrer em nós. Mas é também contínuo renascer. Em Cristo, morremos para nEle viver: este o mistério da redenção; este o mistério da liturgia que celebramos: “Vocês já morreram, e suas vidas estão escondidas com Cristo, em Deus.” Colossenses 3.3. Por detrás das imagens da Epifania que todos conhecemos e adoramos, há a história da jornada da fé através de uma terra estranha, para encontrar o Verbo de Deus bem em meio à ambigüidades das palavras humanas, e também para provar o gosto da vida de Deus nos santos sinais do Pão e do Vinho, para encontrar a morte na vida e a vida na morte, para adorar o mistério e nos deixar ser por Ele transformados. Onde está o Filho de Deus que veio para nos salvar? Onde está o Pão da Vida pelo qual tanto ansiamos? Pela fé, somos todos reunidos como no estábulo. A fé nos faz encontrar o Verbo de Deus em palavras humanas; a fé nos faz experimentar a vida mesma de Deus nos mistérios do Pão e do Vinho, a fé nos faz encontrar e servir ao Filho de Deus uns nos outros, e não menos, ela nos faz ver e afirmar a glória que brilha aí. Então, Belém é para nós também. A Epifania também é para nós; a Sua glória brilha e nós oferecemos nossos dons de adoração. Encontrando o Senhor em Belém, nós o adoramos e não retornamos como éramos antes. Não retornamos a Herodes. Transformados pela adoração, retornamos por outro caminho. “...eles voltaram para a sua terra por outro caminho.”

(NOTA: Lancelot Andrewes (1555-1626), Bispo de Winchester, se afirmou como pregador célebre, especialmente nos grandes festivais da vida da Igreja. Seu trabalho mais conhecido entre nós é talvez a coleção de orações editada em 1648, Preces Privatae. Ele desejava que a Igreja expressasse sua adoração através de um cerimonial bem ordenado e, em sua própria capela a comunhão em ambas as espécies - pão e vinho – era oferecida, além do uso regular de incenso e velas.)

25 janeiro 2009

25 de Janeiro de 2009 • Epifania III

A Confissão de Pedro

“Sou uma testemunha dos sofrimentos de Cristo, e vou participar da glória que será revelada.”
I Carta de São Pedro 5.1-4

Na data de 18 de Janeiro a Igreja celebra a festa da Confissão de São Pedro. Ele foi mesmo uma criatura especial, diferente dos outros onze sob muitos aspectos. Era cheio de fé e não necessitou de qualquer revelação mais pessoal. Tudo o que considerou foi a palavra do Senhor: - Vem! – Deixou então suas redes e O seguiu. Era impetuoso, imprudente e impulsivo. Mas estes traços bem podem ter sido dons do Espírito!
Foi um homem leal. Sozinho, tomou a defesa de Jesus no cenário de cerco do jardim. Da mesma forma, sentiu vergonha pela covardia quando da prisão do Mestre a quem negara por três vezes. Não esteve
livre de preconceitos ao considerar a “fronteira” entre judeus e estrangeiros. Ao mesmo tempo, se deixava mudar, em suas opiniões, pela inspiração de Deus. De temperamento aberto, prontamente se entregou à
tarefa de pregar com vigor, tentando obedecer ao mandamento de Jesus – Apascenta as minhas ovelhas -. Pedro sabia que Jesus era o Cristo e era do tipo que daria este testemunho em um simples minuto. Por esta humanidade tão nossa, damos graças a Deus por tê-lo chamado.


A Conversão de São Paulo

“...Não desobedeci a visão que veio do céu...”
Atos dos Apóstolos 26. 9-21

No dia 25 de Janeiro a Igreja celebra também a Conversão de São Paulo. Muitos dos santos de Deus experimentaram uma Visão do Céu. São João, o Divino, nos alcança sua Visão no Apocalipse inteiro. Mas de
um modo geral, eles indicam o rumo de todos nós, nossa destinação. Como rezamos na celebração da Santa Eucaristia: “Portanto, com os Anjos e Arcanjos e com toda a multidão celestial, que não cessam de proclamar a tua glória, jubilosos louvamos o teu Nome...” Devemos apreciar melhor a Visão; reconhecer as implicações da “incontável multidão, de toda tribo, raça e linguagem.” O Céu está cheio de pessoas, todas confortáveis umas com as outras, conhecendo e se alegrando juntas, celebrando como “a grande nuvem de testemunhas”. Em nosso tempo aqui, em nossa jornada e peregrinação na direção da vida por vir, jamais estaremos sozinhos. Os conselhos e ensino de São Paulo não são “para mim” enquanto indivíduo, mas para a família da fé, a Igreja, o Corpo. Como nos recorda a Carta aos Hebreus, “não abandonemos, como alguns estão fazendo, o costume de assistir às reuniões. Ao contrário, animemos uns aos outros, e ainda mais agora que vocês vêem que está chegando o Dia do Senhor.” (Carta aos Hebreus 10.25) Não percamos de vista que Saulo precisou de um bocado de tempo para ser feito... Paulo!

18 janeiro 2009

18 de Janeiro de 2009 • Epifania II

Deus não existe...

“... ele sabia que seus filhos ofendiam a Deus e não os repreendeu...”
I Samuel 3.13

“Deus não existe. Deixa de te preocupar e desfruta a vida!” Este é o moto ou lema da moda dos ônibus ateus, surgida há pouco na Inglaterra, já conhecida na Espanha e, pelo efeito uniformidade da globalização, deverá logo estar também aqui conosco. Assim como nossos ônibus têm em sua parte traseira propaganda de diferentes agências, principalmente escolas, os conhecidos “double-deck” ingleses e agora os ônibus na Espanha, têm escrita em cores a expressão que inicia este texto. Trata-se de ateísmo rasteiro, sem seriedade e que busca por uma banalização do “problema de Deus”. É bom lembrar que o “problema de Deus” não é dEle mas nosso! O conteúdo do “conselho” nos ônibus é...¨“Desfrute a vida sem pensar no pecado”. Tudo começou com uma jornalista inglesa do The Guardian apoiada pelo já também conhecido Prof. Richard Dawkins, da Associação Humanista Britânica. Estes fatos nos fazem olhar mais de perto para I Samuel 3.1-20, umas das leitura deste domingo. É triste a figura de Eli, considerando-se a forma de viver de seus filhos. Durante muitos anos ele foi fiel e devotado às tarefas no templo; homem de Deus, sem mais nem menos! Mas seus filhos obstinadamente recusavam abraçar a fé e a devoção paternas. O comportamento dos filhos Hofni e Finéias em relação ao Templo era simplesmente “ateu”. A cidade sabia destas coisas e Eli também sabia que o assunto se tornara de domínio público. Sua velhice se fez ainda mais penosa – sem visão e com filhos como razão de constrangimento e amargura. Mas Deus confiara a ele a educação do menino Samuel. Samuel passou a ser o filho devotado que Eli jamais tivera. Nossas crianças crescem hoje cercadas por mensagens e formas de “lazer” que nada tem a ver com a vida em Cristo. Mesmo a boa formação de casa pode ser diluída na escola, nas ruas, pelos recursos de TV e pelos tantos os canais de distração online. Uma cultura de aparências, celebridades, drogas, sexo e violência tem mais impacto que o esforço dos pais. Mas as crianças também podem reconhecer a sinceridade, acolhendo o amor e o cuidado dos pais porque chegarão a compreender o que se faz e o que se diz pelo seu bem e felicidade. De qualquer forma, o quinto andamento não funciona automaticamente. Os pais devem rezá-lo, ensiná-lo e também merecê-lo.

11 janeiro 2009

11 de Janeiro de 2009 • Epifania I

O Batismo de uma Criança

“Quem quer que presencie uma destas veneráveis cerimônias pode duvidar de uma coisa. O batismo de uma criança é a antecipação da fé de um adulto. De uma forma que é comovente para crentes e absurda para descrentes, tratamos a criança como pessoa, um filho de Deus autoconsciente e responsável. É que, cremos, assim Deus trabalha. Os tempos do verbo tem importância menor diante da eternidade: Deus vê desde o começo até o final. Antes que uma criança nasça, ou seja concebida, a misericórdia de Deus já a
recebeu.. Quando Cristo morreu sobre a Cruz, a criança sendo batizada já foi redimida pela dignidade infinita do sangue precioso. Agora, junto á fonte batismal, ela é levada ao fluxo da ação divina; sua salvação será alcançada a cada dia, e completada quando ver o semblante de Deus. Com nenhum de nós foi ou é diferente. Se, no batismo, a criança é vista como adulta, assim somos também nós, pecadores, confiantes em sermos recebidos como santos aos olhos daquela compaixão que nos redime. Somos membros vivos do Cristo. Aos olhos de Deus, somos aquilo que seu amor um dia fará de nós. Mas esta misericordiosa imputação da futura perfeição não é pretensão; Deus sabe como nos santificará e quando nos aceitará como santos; e ele sabe como aceita cada criança como cristã, acolhendo-a como tal. Ele supõe que usará os pais. Sabemos que os pais não podem ser tão frívolos ou sacrílegos ao ponto de trazer uma criança ao batismo, a menos que estejam plenamente decididos a dela fazer o cristão que Deus já antevê. Diante desta responsabilidade, todo vínculo mais pessoal dá uma significação e importância nova à nossa fé. A alma de alguém pode parecer coisa sem maior valor, embora não seja assim, mas ninguém de nós vive somente para si e também não morre somente em si. O nascimento de um filho é o renascimento de nosso amor a Deus. Ele nos confiou tesouro infinito. A salvação da criança está nas mãos infinitas de Deus e em sua bondade inexaurível, a nós conhecida em nosso Salvador, derramada em seu sacrifício, a nós alcançada pelo vínculo do batismo. Para fortalecer tal vínculo, para
abrir este canal, para isto existe toda a prática da fé e, em caso de que a presença de Deus sobre nossas cabeças perca sua força – e esta é nossa perversidade, Ele nos pode estender outro dom, o de nossos amigos, e nossas crianças aos nossos cuidados, abrindo-nos a Ele para que, por nós, chegue até elas. E assim, pelo amor que temos por elas, Ele nos persuade a amá-lo também.”


Revd Austin Farrer, Words for Life, pág. 76 – Charles Conti e L. Houlden, SPCK,
1993

02 janeiro 2009

3 de Janeiro de 2009 • Natal II / Epifania do Senhor

Leituras

Profecia de Isaías 60.1-6
Salmo 60.1-6,9
Carta aos Efésios 3.2-3a, 5-6
Evangelho de S. Mateus 2.1-12


EPIFANIA

A palavra Epifania vem do grego, significando “manifestação”. Da Festa da Epifania, dia 6 de Janeiro, (ou como poderá ser celebrada neste domingo), até o início da Quaresma, viveremos uma estação que guarda em seu centro a manifestação da glória de Deus em Jesus Cristo. Ouvimos da estrela no Oriente guiando aos sábios / astrólogos / reis até o Cristo Menino. Celebramos o batismo de Jesus e a declaração divina de que Ele é verdadeiramente o Filho amado de Deus. João Batista identifica Jesus como o Cordeiro de Deus. André conta ao seu irmão, Simão Pedro, que... “encontramos o Messias”. Jesus faz continuados convites aos seus futuros discípulos e outros seguidores para que “Venham e vejam”. Ele proclama ainda, “Arrependam-se pois é chegado o Reino de Deus”. Ensina as multidões através do que chamamos Sermão do Monte. E finalmente é transfigurado diante de Pedro, Tiago e João – e mais uma vez Deus declara, “Este é o meu Filho Amado, em quem me comprazo.”
Em um sem número de relatos e imagens a quadra da Epifanianos mostra Jesus sendo reconhecido como o Filho amado de Deus, aquele em quem veremos revelada a glória de Deus mesmo. Este é o tempo em que Jesus se manifesta como “Luz do Mundo”. Este é também o momento em que o amor de Deus é testemunhado, para todas as épocas, na pessoa de Jesus de Nazaré.
Mas esta estação tem também uma outra palavra que começa com E. Epifania tem a ver com Evangelização. Evangelização tem também sua raiz grega: Evangelium significa Boa Nova. Usualmente ouvimos ou lemos “Evangelho”, as Boas Novas de Deus em Jesus Cristo. Nas Escrituras não aparece a palavra Evangelização. Mas encontramos “Evangelista” como aquele que proclama as Boas Novas. Então, ao mover-nos neste tempo da Epifania, devemos sempre recordar nossa condição. Já conhecemos a Visitação de Deus em Maria, no Natal, em nós mesmos e também na vida da Igreja. Nós somos todos sua moradia. Nós o encontramos e conhecemos como Luz do Mundo, manifestando-se em e através de todos nós. Mas não pode parar conosco! Somos todos chamados a tornar as Boas Novas bem conhecidas através do testemunho de amor – pelo que fazemos, dizemos e pela forma como vivemos.
É assim que nesta Epifania somos relembrados comos somos todos Evangelistas! Quando renovamos os votos do Santo Batismo, prometemos “proclamar por palavra e exemplo as Boas Novas de Deus em Cristo”. A Epifania insiste conosco em que o Santo Evangelho não é para nós somente. Somos todos chamados a manifestar o poder salvador de Deus em nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos fazê-lo alegremente, poderosamente e desafiadoramente. Devemos ousar ser evangelistas nesta Epifania do Senhor.

26 dezembro 2008

27 de Dezembro de 2008 • Natal do Senhor I

Leituras
Livro de Eclesiástico 3.2-6, 12-14
Salmo 147
Carta aos Colossenses 3.12-21
Evangelho de São Lucas 2.22-40

Maria e o nascimento do Senhor

O nascimento virginal, como a Igreja ensina, será mesmo parte de nossa fé cristã? Esta é uma pergunta oportuna no tempo em que celebramos o nascimento de Jesus. Quando estivemos, na Eucaristia do Natal, dissemos estas palavras: “ ... e encarnou, por obra do Espírito Santo, da Virgem Maria.” Quando rezamos assim, estamos mesmo significando o anúncio da Igreja ou trata-se só de um pedacinho do Credo pelo qual passamos sem muita atenção? Em outras palavras: cremos mesmo que o nascimento virginal é parte necessária de nossa fé? Já houve um bocado de grandes nomes da teologia e de outros cristãos que afirmaram não ver no nascimento virginal um componente necessário da Fé Cristã. Estritamente falando eles podem estar “certos” no sentido de que nossa fé no Senhor Jesus não depende do nascimento virginal e sim da Ressurreição. A base da pregação e ensino apostólico sempre foi o anúncio da Ressurreição do Senhor. O nascimento de Jesus nem aparece, por exemplo, no Livro de Atos dos Apóstolos. O ponto central de nossa fé reside no evento da Páscoa.
De qualquer forma, o ensino sobre o nascimento virginal sempre foi uma tradição solene, forte, séria e inspiradora da Encarnação, central para a fé e a teologia Anglicanas. É o que designamos como um dos mistérios divinos. Deus se relaciona com a ordem criada sob formas que somente compreendemos em parte. Quando o santo Espírito de Deus vem sobre nós mesmos, somos efetivamente transformados! Por vezes somos até maravilhosamente curados! Muitas outras coisas formidáveis Deus opera em nossas vidas quando estamos em comunhão com Ele. Por que seria diferente com a menina Maria?
O encontro de nossa Senhora com o anjo Gabriel é um dos instantes mais encantadores em que vemos Deus tocar o mundo de forma tão especial. Ele não estava agindo contra as leis da natureza mas atuava com a ordem natural sob uma forma que ia ao encontro da resposta maravilhosa da adolescente Maria. Deus chamou Maria para ser instrumento da vinda do Ungido de Deus (o Cristo).
Quando Maria respondeu, ela foi também poderosamente tocada por Deus. Assim, a segunda Pessoa da Bendita Trindade foi nela concebida como ser humano.
O nascimento virginal é parte de nossa fé e nós o acolhemos com alegria e encanto. Não necessitamos de qualquer análise “científica”. Deus atuou e veio dentre nós de forma única como o fez em Jesus nosso Senhor. Igualmente de forma maravilhosa e misteriosa, Deus continua a vir até nós sob as formas de pão e vinho, quando recebemos o Corpo e Sangue de Cristo na Santa Eucaristia. O que verdadeiramente importa é que nós, com a Bem-Aventurada Virgem Maria, entremos em comunhão com Deus. Ele sempre anseia em partilhar seu amor e exuberância de vida conosco.
Rezemos para que todos os que lerem este texto tenham também um Santo Natal, um nascimento transformador em suas vidas.

21 dezembro 2008

21 de Dezembro de 2008 • Advento IV

Leituras

II Samuel 7.1-5, 8-11, 16
Carta aos Romanos 16.25-27
Evangelho de São Lucas 1. 26-3




Os Anjos, o Advento, o Natal e a Epifania

Nas leituras desta época do ano os Anjos do Senhor andam muito ocupados. Um deles visita Zacarias e diz que sua esposa teria uma criança. Outro aparece ainda à Maria, José, aos pastores e aos magos. Os anjos também apareceram a Moisés na sarça ardente; à Agar, a mãe de Ismael; e a Abraão quando preparava o sacrifício de seu filho Isaque. Jacó luta com anjo. Uma experiência devocional séria talvez fosse convidar pessoas da sua congregação que tivessem algum relato semelhante de visitação. Aquilo que pode parecer uma “reunião” bem breve (com escassos experiências...), pode bem acabar por se tornar um bom ciclo de relatos de visitações. É possível que o “tema” pareça piegas ou do gênero da bobice “new age”. Mas a Fé Cristã, com maturidade e inteligência, acolhe a presença dos anjos não só nos relatos bíblicos do passado mas na vida pessoal dos crentes em cada geração. Qual seria o seu relato da visitação de um anjo? O que teria feito com que o anjo o / a visitasse? O que foi que seu anjo disse? Estas são perguntas devocionais que vale aprofundar no tempo que já estamos vivendo, antes e depois do Natal do Senhor. Rezar é crucial para nós, o tempo todo. Mas o tempo do Advento é uma oportunidade muito especial para que se reúnam pequenos grupos (ou em família) para que se amadureça na busca de Deus. O exercício devocional que referimos antes pode ser uma ocasião de crescimento e comunhão justamente agora quando nos preparamos esperando pela vinda do bem mais valioso! Se você entende que a intensidade do esforço ou a pequenez de sua fé são mpedimentos, recorde que o Deus Altíssimo vem à nós como um nenê. Isto não é só surpreendente. É também perigoso! Os nenês, afinal são fracos, incapazes de se defender, necessitam de cuidados e, não devemos esquecer, não conseguem dizer muita coisa! O hino 20, Pequena Vila de Belém, composto pelo Revdo. Philip Brooks, mais tarde Bispo de Massachusetss, foi pela primeira vez cantado no Natal de 1868. A terceira estrofe nos ensina assim: “...sereno e sem alarme, vem Ele ao mundo assim, trazendo aos homens
redenção, amor e paz sem fim.” Sereno e sem alarme!

14 dezembro 2008

14 de Dezembro de 2008 • Advento III

Leituras
Isaías 61.1-2, 10-11
Salmo 126
I Tessalonicenses 5.16-24
S. João 1.6-8, 19-28



Advento


O Advento desmantela o nosso mundinho arrumado por conveniência pessoal e nos prepara para um mundo radicalmente maior que é o universo do amor de Deus. O Natal de Jesus é o melhor sinal destas coisas. O Advento não é um tempo para disfarces. Nele, o que está oculto deve vir à luz. É tempo de tremor. Ele nos envolve como que numa espécie de terremoto, sacudindo os padrões nem sempre verdadeiros ou maduros que dominam a experiência humana. Esta a razão porque as leituras dos domingos nos sugerem transformação e apocalipse. É como se o Advento fosse um tempo de demolição, de preparação do terreno para a construção do que é genuinamente novo. No calendário da Igreja do Ocidente ainda antes do século VI, o Advento parece ter-se desenvolvido como um tempo preparatório e então, penitencial, enraizado no ensino da esperança. O Advento participa assim da visão bíblica do arrependimento e da esperança, particularmente na figura de João, o Batista, rudemente pregando pelos caminhos do deserto, clamando por contrição e batizando os que se prontificavam a esperar pela Soberania de Deus. Enquanto os mensageiros trazem até João a resposta de Jesus, o Mestre se volta para os presentes e inicia uma revelação apaixonada que antecipa o que lhe passa pela mente naquela hora crítica. Jesus começa por mostrar a importância do papel do João na economia de Deus. Diz ele que João é o maior dentre os nascidos de mulher e que com ele a era profética se encerrava e um tempo novo se abria. Jesus sabe que no Reino do Pai há um só que é grande, Ele mesmo, ainda se sinte ainda menor que João numa escala popular de valores, alguém que voluntariamente aceita o papel mais humilde (São Lucas 22.25-27), mas que em breve será revelado como o Filho do Homem em poder. Tudo isto nos empurra a pensar melhor sobre nossas vidas como cristãos. Nelas, também nossas atitudes. Pensando sério, não podemos evitar de refletir sobre o impacto das atitudes em nossas vidas. Elas talvez sejam até mais importantes que os fatos. Mais importantes que o passado, que a educação, que o dinheiro, que as circunstâncias, que os fracassos, que os sucessos e do que os outros pensam ou dizem. São até mais importantes que as aparências, que os nossos dons e habilidades.
Nossas atitudes podem quebrar uma comunidade, a igreja e a família. Mas o que há de encorajador é que Deus nos dá a oportunidade de considerar as atitudes que tomaremos no dia. Não podemos mudar o passado. Não podemos mudar o fato de que as pessoas agirão de um certo modo. Não podemos mudar o inevitável. A única coisa que podemos efetivamente é tocar a única corda de que dispomos... nossa atitude. A vida talvez seja 10% do que nos acontece e 90% de como a ela respondemos. Neste tempo do Advento, de terremoto nos nossos padrões e revelação das coisas que só Deus conhece, rezar mais sobre nossas atitudes é também um exercício penitencial.

07 dezembro 2008

7 de Dezembro de 2008 • Advento II

Leituras
Isaías 40.1-5, 9-11
Salmo 85
II Carta de S. Pedro 3.8-14
S. Marcos 1.1-8


Esperando pela Vinda

“Advento” significa “vinda”, em Latim. É a primeira estação do Ano Cristão e tem quatro domingos. A coroa do Advento, um círculo como coroa, verde, com 4 velas, uma para cada domingo ou, conforme uso mais recente, com uma quinta vela no centro, parta a festa mesma do Natal. Nesta quadra, o Glória e outros hinos de louvor devem ser omitidos e a Igreja se move para a Oração Eucarística II que enfatiza mais a Encarnação (Cristo plenamente humano e plenamente divino). Durante estas semanas todas nós nos preparamos, corações e mentes para celebrar com plenitude a festa do Santo Natal do Senhor. Lembremos que não se trata do dia 25 somente mas do período que vai de 25 de Dezembro até 5 de Janeiro. É um tempo em que olhamos para o primeiro Natal e aguardamos, confiantes, a Segunda Vinda. É um tempo de preparação, expectativa, espera, zelo, compaixão, solidariedade e esperança. Não menos importante é que as crianças sejam instruídas a perceberem a distinção entre o tempo do Advento e o tempo do Natal. O comércio tornou isso muito difícil mas, por isso mesmo é ainda mais necessário! As crianças (e ao adultos não menos!) precisam aprender que este é muito mais que um
tempo para compras... O Advento é um tempo para reconciliação e perdão, tempo para servir e alcançar àqueles a quem talvez tenhamos magoado. É tempo para ser luz na escuridão. É tempo para refletir e continuar nossa jornada com Jesus Cristo, Senhor das nossas vidas. Embora a oração seja crucial em todos os momentos, o Advento é uma oportunidade especial para que nos ofereçamos ao serviço de Pai.
Austin Farrer é o nome de um Anglicano que temos citado semanalmente no blog do SETEK (www.setek-setek.blogspot.com). Farrer foi um dos grandes “divines” no meio do século XX, professor em Oxford, teólogo, filósofo, capelão, além de ser pároco e amigo de outro nome não menos conhecido como o de C. S. Lewis. Seus sermões são uma mistura única de clareza teológica, qualidade literária e realismo prático. Em um destes (Fish out of the Water, 1960) ou, “Peixe fora d’água”, ele nos aconselha sobre a preparação para a Santa Comunhão: “É difícil prepararnos para a Comunhão já que não é fácil encarar a verdade. Mas não é complicado demais nem enigmático. Você deve simplesmente aceitar aquilo que sabe que Deus exige de você, além de renunciar ao que você sabe que ele proíbe... e arrepender-se. Lembre de algo pelo qual deve dar graças e alguém por quem rezar... e assim você terá sua preparação.” Não poderíamos fazer nada melhor neste Advento que seguir o conselho de Austin Farrer.

30 novembro 2008

30 de Novembro de 2008 • Advento I

Leituras

Profecia de Isaías 63.16-17; 64.1,3-8
Salmo 80I
Carta aos Coríntios 1.3-9
Evangelho de São Marcos 13.33-37


Gravidez, Tempo de Espera

É simples assim. Há coisas pelas quais devemos esperar. Como o nascimento de uma criança. Não importa o quão fatigante possa ser o tempo da gravidez, não se pode apressar o processo. Isso pode ser frustrante e interferir com outros planos. Pode até nem ser conveniente mas não é algo que se possa mudar.
Algumas coisas na vida estão fora de controle. Esperar é uma experiência de desenvolvimento e maturação espiritual. Ao esperar, nos preparamos fazendo arranjos, mudando planos, ajustando sentimentos, tudo para receber o novo evento. A criança, por exemplo, não está pronta para se tornar adulta porque há todo um mundo de experiências que precisa conhecer antes de chegar lá. Os adolescentes são especialmente ansiosos para se fazerem adultos e têm uma grande necessidade em esperar. Esperar é também uma experiência espiritual.
Nós todos não esperamos por nossas mortes. Como é mesmo que usamos o tempo? Não será isso o que mais importa espiritualmente? Se estamos todos destinados à salvação, por que Deus então não arruma as coisas de forma que não precisemos esperar tanto? Por que Ele não nos alcança algum tipo de satisfação instantânea? A razão é a mesma. Assim como com a criança e com o adolescente impaciente, também não estamos prontos para esperar. Esperar é parte da transformação do feto. Da criança, do adolescente e, não menos, do adulto impaciente. Não estar em controle, não ser capaz em prover satisfação imediata... nos força a fazer algo mais, quer dizer, aceitar nossa vida como criaturas e não como deuses. A espera está no coração mesmo da relação com o Deus vivo. Ele não pula... só porque o chamamos, mas escuta nossa súplica e responde segundo o seu próprio tempo. Pode-se dizer que a espera nos ensina a não contar tanto com aquilo que queremos ou exigimos e com a forma como queremos isso ou aquilo. A vida não é assim. Quem tenta fazer diferente erra o alvo. Possivelmente vai passar muito tempo sozinho. Hoje, poucas pessoas estão prontas a confiar em um Senhor.
O Advento é um tempo, uma estação que inicia outro Ano Cristão. Há um sabor próprio, justamente a tensão da espera. Mesmo tanto tempo após o nascimento de Jesus, poucos dentre nós estamos prontos a receber o Verbo feito carne, o Deus que veio dentre nós, como um de nós! Não estamos preparados porque somos o que a Igreja chama de “pecadores”, quer dizer, preferimos mesmo ser como Deus e fazer as coisas de nosso jeito. O tempo do Advento do Senhor nos alcança uma oportunidade de experimentar mais uma vez o conflito interior que se colocou em movimento com o anúncio de que Deus se faria como nós ou ainda, que Ele está dentre nós e convivemos com Ele. O Advento pode ser um tempo muito rico devocionalmente se nos entregamos a ele de todo o coração. O Advento pode nos fazer mais humildes, mais pacíficos,
mais realistas a nosso próprio respeito e ao próximo. Ele tem sido, por tantos séculos, uma ferramenta muito útil para ajudar os cristãos a crescerem como as criaturas que Deus deseja. Um bom tempo do Advento nos ajudará a crescer como pessoas, se a ele nos submetermos. É matéria de crescimento espiritual. Experimente. Talvez não gostemos de tudo.... mas haverá transformação.
O Advento é uma intensificação daquilo que a vida cristã é: nós esperamos e, esperando, rezamos. Na oração, discernimos a Presença e ação do Pai. “Vem, Jesus, tão esperado, nossas almas libertar do temor e do pecado. Vem a tua paz nos dar.”


Hino nº 1, do HE

23 novembro 2008

23 de Novembro de 2008 • Domingo Anterior ao Advento • Festa de Cristo Rei

Leituras
Profecia de Ezequiel 34.11-12, 15-17
Salmo 95.1-7
I Carta aos Coríntios 15.20-26,28
São Mateus 25.31-46


A Vontade de Deus e a Minha


“Nossa liberdade e anseio por independência são muito escassos: é só a superfície consciente da mente; mas há então, uma grande profundidade abaixo, da qual temos uma noção muito pobre, e que, sem dúvida, afeta nossas ações em extensão indeterminada.Quando eu ainda tentava nadar, me sentia valoroso ao percorrer algumas águas mais profundas; mas tomava o cuidado para não pensar no terrível espaço abaixo entre os meus pés e o fundo; eu me concentrava na superfície e tentava me alegrar. É assim mesmo, sem dúvida, com nossa vida consciente. Nos mantemos à superfície da mente e achamos que somos livres. Fazemos um monte de coisas com nossas muitas atividades e iniciativas e ficamos com a impressão de que andamos na direção que escolhemos; mas se olharmos ao redor, considerando nossas coisas, veremos que a corrente foi o que nos conduziu.

O bom nadador, que não conhece a praia, se afogará em sua própria natação; ele não conseguirá nadar contra as ondas. Mas a familiaridade com a água certamente preservará o nadador comedido: ele conhece as correntes de fundo e saberá evitar o esforço. A maré prosseguirá em outro sentido mas ele avançará em outro, acima das águas perigosas.

Nós precisamos nadar, a menos que afundemos – quer dizer – precisamos exercer nossa vontade. Esforço inarredável, este tem sido o caminho dos santos. E ainda assim, por nossa vontade somente, muito pouco podemos fazer. Pois devemos amar... e este é o primeiro mandamento, a Deus – e ao nosso próximo, com o mesmo zelo de Deus: se não conseguimos amar, nada alcançamos: não, nada que falemos com a linguagem dos anjos, nada que dominemos em todos os mistérios do conhecimento, ou mesmo que demos tudo o que temos e nos vistamos como franciscanos. Não iremos a lugar algum sem amor; mas estará o amor no comando? Posso eu amar só por cerrar os dentes e fechar bem os punhos? Enrijecer os músculos, ferver o sangue, imitar o tigre? Não: que os céus nos salvem dos cristãos de tipo tigre, bufando como próprio demônio, buscando a quem devorar.

Sou instruído a amar, e o amor não está no comando; ainda assim, sei bem para onde as correntes da caridade fluem, e posso me associar a elas. Ezequiel teve uma visão (capítulo 47): um grande afloramento de água, clara, abundante e doce, brotou do solo do templo, em colinas muito áridas. O leste e o oeste foram envolvidos como por um dilúvio:na direção do leste, até o Mar Morto, e em toda parte, a água chegou, e a vida ressurgiu. As correntes de água doce se espalharam através das águas onduladas do lago, e onde quer que fossem, os peixes começaram a se reunir como enxames. Assim somos nós: assim são as nossas almas, vivas somente naquelas correntes suaves que fazem seu caminho e isto, desde o dia de Pentecostes, acalmando e curando o mar agitado. Será que podemos achar nosso caminho dentre estas correntes? Sim: podemos entrar em nosso quarto, fechar a porta, e rezar ao Pai nosso que nos escuta em secreto, em comunhão com o Redentor que nos deu este mandamento; e então podemos esperar por seu Espírito. Clamaremos por Deus e Deus mesmo dará o amor que nos impulsiona a Ele; lembraremos de nossos amigos e de nossos inimigos também, se temos tantos, e o cuidado de Deus por eles nos moverá. Deus é nossa liberdade, Deus é nosso poder: pois Deus é Espírito.”


Austin Farrer em Words for Life, editado por Charles Conti e Leslie Houlden, SPCK, Londres, 1993, página 23