25 abril 2008

Jornada teológica na Diocese Sul-Ocidental contou com participação do CEA e do SETEK.

Nos dias 18 e 19 do corrente, no Centro Diocesano de Itaara, o Revdo. Dr. Carlos Calvani (CEA) e D. Luiz. O. P. Prado (SETEK) desenvolveram uma jornada de estudo sobre o conteúdo dos Credos. A foto mostra o grupo de participantes.

22 abril 2008

Clérigos do Canadá visitam o SETEK

Dois clérigos da Diocese de Ontario, Canadá, após visita à Companheira, Diocese Sul-Ocidental, encontram alunos residentes do SETEK para relato e troca de experiências. O encontro ocorreu na manhã da Terça-feira última, dia 22 de Abril.

20 abril 2008

Páscoa V

Leituras do Domingo

Atos dos Apóstolos 6.1-7
Salmo 35.1-5, 15-16
I Carta de São Pedro 2.4-9
Evangelho de São João 14.1-12

Álvaro Pires de Évora, Cristo Ressuscitado, c. 1430

A Igreja e o Mundo

A Igreja seguirá Cristo no continuado serviço das necessidades humanas, os pobres, os famintos, os enfermos, os despossuídos e os desenraizados, sem outra razão que não a de aproximar-se mais de Cristo, com a humildade que suprime qualquer arrogância ou sentido de posse.
A Igreja precisa desafiar as pressuposições do mundo, mostrando que a maior necessidade dos seres humanos é a de sermos trazidos todos, na humildade e arrependimento, ao amor e obediência de Deus.
Em meio ao seu envolvimento no serviço da comunidade, a Igreja manterá vivos, para seus próprios membros, e se esforçará por fazê-lo também aos outros, três imutáveis temas do Evangelho:
O primeiro é o da prioridade do Perdão Divino como a chave para a ética cristã. A comunidade cristã é a comunidade perdoada; este é substrato da sua relação com Deus e da humildade do seu serviço aos homens.
O segundo tema é o Céu. O Céu dá sentido à nossa existência de agora; ele define a infinita dignidade de todo homem, mulher e criança; o Céu provê a perspectiva pela qual vemos os problemas da vida.
O terceiro tema é o da Adoração. Deve ser uma adoração não alienada da vida do mundo mas colocada bem em seu centro, uma prática de adoração e contemplação em meio aos negócios do mundo.

O Cristo Ressuscitado, Fra Angélico

O Sacerdote Cristão Hoje

Escravos de Cristo e servos dos homens. Será que podemos recapturar a verdade e a beleza desta vocação?
Primeiro, o sacerdote é aquele que aprende teologia e a ensina. Seu estudo é sério e constante, não por erudição mas para sermos simples.
Enquanto ensina os leigos o que não conseguiriam saber sem a sua ajuda, ele deve, o tempo todo, deles aprender sobre as questões às quais a teologia é aplicada.
Em seguida, o sacerdote representa na vida da Igreja a dimensão da Divina Reconciliação. Ele se descobrirá como uma das muitas agências que ajudam as almas oprimidas e isto, com diversas habilidades e recursos. Mas em tudo, caberá a ele representar a quase sempre esquecida dimensão do perdão de Deus aos contritos.
Assim também, o sacerdote será, de forma muito especial, o Homem de Oração.
O trabalho de pastor é trabalho de oração com a sua própria intensidade de tristeza e alegria.
Finalmente, e de uma forma que resume tudo, o sacerdote é o Homem da Eucaristia.
Seu ofício representa uma dimensão muito mais que local, mais que contemporânea, que é o contexto verdadeiro do rito no Evangelho e na Igreja Católica.

Extratos de Gateway to God
Arcebispo Michael Ramsey
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd, Londres 1988

13 abril 2008

Páscoa IV

A Santa Tradição na Igreja Anglicana

“Creio que a santa tradição está viva em nossa Igreja: pois, o que é mesmo a santa tradição a não ser o fluxo da vida divina, a vida mesma do Deus Encarnado e do Santo Espírito na Igreja?
Esta vida divina está nas Escrituras, na pregação do Evangelho, nos Sacramentos, nas vidas dos cristãos, na Comunhão dos Santos. Isto é a santa tradição.
Em nossa teologia anglicana não falamos dela exatamente como os Ortodoxos o fazem. Mas ela está aí, conosco e em nós. Nós acolhemos a Santa Escritura com o supremo direito de conferir e testar o que apropriadamente pertence ou não à santa tradição.
Devemos considerar seriamente a relação da Igreja enquanto eterna e a Igreja tal como encarnada no movimento da história, bem como a relação entre a verdade divina e as palavras nas quais a verdade divina toma corpo.
O trabalho teológico, a oração, a liturgia, a amizade e as ações conjuntas no sentido de encontrar as tristezas do mundo, tudo isto é parte do caminho da unidade.
A santa tradição é Deus feito carne, vivo e atuante na vida toda dos cristãos.”

Arcebispo Michael Ramsey
Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd, Londres 1988

A Igreja Histórica e a Igreja do Futuro

“A linguagem da estrutura é só uma dentre as metáforas para – Igreja – e todas as metáforas devem ser consideradas juntas: edifício, corpo, vinha, ecclesia.
Cada uma delas fala do ofertório de uma vez por todas da Igreja. E cada uma delas também fala do crescimento da Igreja em seu caminho de tornar-se perfeitamente o que é. Da metáfora do templo, por exemplo, brota uma outra metáfora, pois as pedras do templo são pedras vivas.
Nós apreciamos muito o dom da fé e ordem históricas, não como se fossem paredes de uma fortaleza fechada mas como dons de Deus que, ao mesmo tempo, testemunham o passado e servem ao edifício de um futuro ainda não cumprido. Esta compreensão e combinação de aspectos históricos e futuros em nossa compreensão da Igreja, pode ajudar em nossos esforços de combinar a lealdade à tradição com a sensibilidade aos movimentos contemporâneos.
Se esta for uma aventura difícil não é, no entanto, algo que ponha em risco as nossas almas. Antes, nossas almas podem correr risco se nos contentarmos, seja em repousar na tradição passada e impassível, bem como em compartilhá-la no entusiasmo contemporâneo, sem qualquer relação com o grande rio do testemunho dos cristãos através dos tempos.”

Arcebispo Michael Ramsey
Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd
Londres 1988

06 abril 2008

Páscoa III


A Santa Tradição e a Bíblia

“Tradição não significa que a Igreja tenha ensinamentos que se somem à Bíblia ou que seja um corpo adicional de revelação. Significa, antes, que é na vida comunitária, na adoração e na compreensão geral da comunidade cristã que o cristão se aprofunda na apreensão da mensagem bíblica.
A Tradição será nossa guia à interpretação da Bíblia através do apelo à vida e experiência da Igreja, desde os Pais antigos e daí em diante.
A Tradição será redescoberta não como um conjunto de normas doutrinais, mas como atividade viva da comunidade cristã, com seus membros servindo uns aos outros e servindo ao mundo, constituindo-se assim como o cenário corporificado pelo qual a mensagem da Bíblia é dinamicamente sentida e compreendida. A vida comunitária da Igreja interpretará a Bíblia não como protetora de seu conteúdo mas como o encontro divino-humano no qual a Palavra de Deus é ouvida.
É através deste trabalho de interpretação que a própria história da Bíblia, e suas categorias, se farão não menos... mas ainda de mais autoridade... ao declarar o sentido de Deus e o sentido do ser humano.”
Arcebispo Michael Ramsey
Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd, Londres 1988


A Santa Tradição: por que consideramos a era dos Pais da Igreja?

“Em meio a cenários culturais totalmente diferentes, clamando como o fazem por novas compreensões, por que olhamos ainda para a era dos Pais da Igreja? Aprendemos todo o possível de cada século cristão, mas olhamos para trás, para o tempo dos Pais, porque ele nos fala da entrega histórica de nossa fé e também por causa da continuada identidade da Santa Igreja Católica.
Importa muito que os Pais tenham levado a sério questões sobre a verdade que ainda convivem conosco... Importa que o Deus que é salvador do mundo é também do mundo o Criador, e importa também que este Deus não envia uma espécie de intermediário para nos trazer salvação mas dá do seu próprio ser para reunir a humanidade à Ele.
O recurso dos cristãos à história não é mera jornada ao passado, pois o passado está vivo e seus santos estão próximos de nós, na família que une a terra ao céu e o céu à terra.
Atanásio, Basílio e Crisóstomo, juntos com Ambrósio, Agostinho e Leo estão conosco nesta mesma família. Nós partilhamos com eles e com a Mãe de nosso Senhor, e com Deus, na adoração dos céus. Eles estão conosco na medida em que testemunhamos o Salvador num mundo escuro e tempestuoso.”
Arcebispo Michael Ramsey
Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd, Londres 1988

30 março 2008

Páscoa II

A Igreja e a Glória de Cristo

“Dei a eles a glória que me deste, para que possam ser um, assim como tu e eu somos um.”
São João 17.22

“Aqui está a significação da Igreja. É o mistério da participação de homens e mulheres na glória de Cristo. Batizados em sua morte e tendo sido feitos participantes na sua Ressurreição, são agora membros do Corpo de Cristo, ramos da vinha que é Cristo.
Nela habitando a glória, a Igreja é o templo de Deus. Mas a glória na Igreja é uma glória invisível. Embora a Igreja seja visível, a glória não pode ser confundida com majestade e esplendor terreno, pois é glória somente discernível pela fé.
Somente na parousia a glória será visível. A glória na Igreja é uma amostra da glória que está por vir. Aqui, os poderes da era vindoura já trabalham na humilhação da Igreja: lá, a visão aberta da glória espera a Igreja no dia em que o julgamento começar, na casa de Deus. Separada deste contexto escatológico a doutrina da Igreja se torna a doutrina de uma instituição dentre outras no plano da história.”
Arcebispo Michael Ramsey
Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd, Londres 1988

White Crucifixion, 1938
Marc Chagall (1887-1985)

“Nos primeiros dias do Cristianismo um – apóstolo – era antes de tudo um homem que afirmava ser testemunha ocular da Ressurreição. Alguns dias mais tarde, depois da Crucifixão, quando dois candidatos eram considerados para a vaga criada pela traição de Judas, sua qualificação era a de que haviam conhecido Jesus pessoalmente, tanto antes quanto depois da Sua morte e podiam, falando aos de fora, oferecer um testemunho em primeira mão da Ressurreição (Atos dos Apóstolos 1.22)...
A Ressurreição é o tema central em toda pregação cristã reportada em Atos dos Apóstolos. A Ressurreição e suas conseqüências, eram o Evangelho – ou as boas novas – que os cristãos apresentavam: aquilo que nós chamamos de – evangelhos -, ou narrativas da vida e morte de nosso Senhor, foram compostos mais tarde, para o benefício daqueles que já haviam aceito o Evangelho! Estes documentos não foram de fato a base do Cristianismo: eles foram escritos para os já convertidos. O milagre da Ressurreição, e a teologia daquele milagre, vêm primeiro: a biografia viria mais tarde, quase que como um comentário...
Quando os escritores contemporâneos falam da Ressurreição, usualmente significam um momento particular – a descoberta do Túmulo Vazio e a aparição de Jesus a poucos passos dali. O relato daqueles momentos é o que os apologistas buscam apoiar e defender... e os céticos se esforçam por desacreditar. Mas esta concentração quase exclusiva naqueles primeiros cinco minutos, mais ou menos, da Ressurreição, teria desconcertado os primeiros mestres cristãos. Ao clamar terem visto a Ressurreição eles não estavam necessariamente afirmando terem presenciado aquele primeiro evento . Alguns deles, sim o viram. Outros não. Aquele primeiro – encontro – não tinha importância maior que qualquer outra das aparições de Jesus ressurreto... a não ser pela importância dramática e poética que as experiências iniciais costumam ter.O que eles afirmavam era que todos eles, uma ou outra vez, encontraram Jesus durante as seis ou sete semanas que se seguiram à Sua morte. Por vezes parece terem estado sozinhos, mas uma ocasião os Doze estavam juntos ao encontrá-lo... e ainda em outra ocasião, perto de mais ou menos quinhentos deles...sendo que, segundo São Paulo, a maior parte deles estava ainda viva quando escreveu a I Carta aos Coríntios, isto é, em torno do ano 55.”
C.S. Lewis, Miracles
William Collins Sons, 1974

23 março 2008

Festa da Ressurreição do Senhor

Páscoa

“... ainda não tinham compreendido que, conforme a Escritura, ele devia ressuscitar dos mortos.”

São João 20.1-10

Jesus fora ressuscitado, erguido a uma vida nova e um a modo glorioso de ser. A Encarnação bem como a missão inteira de Jesus não é somente espiritual. É começo da re-criação do mundo por Ele feito. Essa era a fé da igreja apostólica.
Não poderia haver demora no túmulo. A Ressurreição inaugura uma nova ordem. Maria Madalena não se pode prender ao momento, ela deve sair e contar aos discípulos que Jesus está a caminho para a subida ao céu.
Os discípulos, alegrando-se na presença de Jesus ao entardecer da Páscoa, são enviados em missão ao mundo, como Jesus mesmo o fora, enviado pelo Pai.
É assim que todos, devemos olhar para frente.

Arcebispo Michael Ramsey
Daily Readings with Michael Ramsey

Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman, and Todd. Londres, 1988




“A alegria da Ressurreição é algo que nós também devemos aprender a experimentar, mas só a podemos experimentar se primeiro aprendemos a tragédia da Cruz. Para ressuscitar precisamos morrer. Morrer para nosso egoísmo arrogante, morrer para nossos temores, morrer para tudo o que faça o mundo tão estreito, tão frio, tão pobre, tão cruel. Precisamos morrer para que nossas almas possam viver, possam regozijar-se e descobrir a fonte da vida. Sendo assim, então a Ressurreição de Cristo descerá também à nós. Mas sem a morte na Cruz, não há Ressurreição, a Ressurreição que é alegria, alegria de vida redescoberta, a alegria pela vida que ninguém nos pode tirar, jamais! É alegria pela vida super abundante, alegria que como um riacho corre e desce as montanhas, carregando consigo mesma o próprio céu refletindo em suas águas cheias de vida. A Ressurreição de Cristo é realidade na história tanto quanto sua morte na Cruz, e é porque pertence à história que nelas cremos. Não é só com nossos corações mas com a totalidade de nossa experiência que conhecemos ao Cristo ressurreto. Nós podemos conhece-lo dia após dia, como os apóstolos também o conheceram. Não o Cristo da carne, nem o Cristo visto na solidão pelas pessoas que o cercavam nos dias da sua vida terrena, mas o Cristo vivo, sempre presente. O Cristo do espírito, de quem São Paulo fala, o Cristo Ressurreto que pertence ao tempo e à eternidade, porque Ele morreu uma vez sobre a Cruz mas vive para sempre.”

Arcebispo Anthony Bloom
Meditations on a Theme
A. R. Mowbray, 1972

16 março 2008

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

Ao Calvário
São João 19.17-23

“Jesus saiu carregando a sua cruz para o lugar chamado Calvário.”
“Assim como no Jardim, breve no Calvário, enquanto São Marcos mostra as trevas e a solidão, São João mostra a glória. Não há inconsistência. É na auto entrega profunda de Jesus à solidão e morte que a glória de fato brilha.
Majestosamente, Jesus carrega sua própria cruz, e Ele caminha como alguém que tem o poder de dar sua própria vida e poder, para retomá-los novamente. Pilatos, num golpe final de obstinação, insiste no título sobre a cruz, como – O Rei dos Judeus – e a escrita sendo em latim e grego, como símbolo da soberania de Jesus sobre todas as nações. – Anunciai aos pagãos que o Senhor é Rei. - Lembramos os gregos que vieram no Domingo de Ramos e disseram: - Senhor, gostaríamos de ver Jesus - , e Jesus falou sobre o sinal da atração de todos os humanos à Si mesmo. Muitos gregos e o povo de toda raça se aproximarão ainda do Calvário nos séculos que virão...
A Vitória
São João 19.28-30

“Está consumado.”
“Aqui não se trata de derrota que necessite de ressurreição para revertê-la. Antes, é uma vitória para assinalar que a Páscoa vem logo para selá-la. A vitória tem a ver tanto com o pecado como com o sofrimento.
O pecado já fizera o seu pior, mas aqui temos a retidão sem fracasso. O sofrimento também fizera todo o seu mal, mas Jesus estava suficientemente acostumado com ele, ao ponto de transfigurá-lo.
A glória aqui está, e por todos os tempos os pecadores e sofredores podem, pela fé, confiar na vitória de Jesus: o pecado foi conquistado e o sofrimento transfigurado. Na I Carta de São João lemos: - Esta é a vitória que vence o mundo, a nossa fé. (I São João 5.4)
Rezamos por fé na vitória de Cristo. Oremos para que os que os que sofrem, saibam que podem ter tua consolação.”

Gateway to God
Arcebispo Michael Ramsey
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman and Todd, Londres 1988

09 março 2008

SETEK - III Curso de Verão

SETEK - III Curso de Verão

Tema: Fé e Razão

Palestrantes:
Palestra sobre Ecumenismo - D. Orlando S. de Oliveira
Mesa Redonda sobre Modelos Diocesanos de Formação Teológica: D. Luiz O. P.Prado
Palestra e Projeção sobre o temário Fé e Razão: Prof. Mestre Inácio Pinzetta
Painel sobre o Temário, com as abordagens:
Filosofia - Prof. Mestre Inácio Pinzetta
Rito - Prof. Mestre Revdo. Henrique Illarze
Hermenêutica - Prof. Dr. Revdo. Humberto M. Gonçalves

O III Curso de Verão foi alojado nas dependências do próprio prédio do SETEK, de 7 até 9 do corrente, contando com alunos representantes de diocese do extremo sul-sudeste, (Rio de Janeiro e São Paulo inclusive).

V Domingo da Quaresma

A Oração pela Unidade
São João 17.16-19


“Assim como eu não sou do mundo, eles também não são. Que sejam teus por meio da verdade – a tua palavra é a verdade. Assim como tu me mandaste ao mundo, eu também os mandei. A favor deles eu me entrego completamente a ti. Faço isso para que de fato eles pertençam a ti.”

“Jesus reza por seus discípulos mais próximos. Cabe a eles testemunhar Seu amor e verdade ao mundo, e ele ora também para que sejam preservados na verdade que revelou, bem como na santidade à qual, por eles se consagrou. A oração por sua unidade está associada à oração pela fidelidade dos discípulos para com a verdade, bem como por sua consagração em santidade.
Esta oração já foi chamada de oração de Jesus pela unidade. Não o é menos uma oração por verdade e santidade. De fato, percebe-se cada vez mais que a redescoberta da verdadeira unidade dentre os cristãos não pode ser separada da profunda compreensão da verdade e do crescimento em santidade. A visão da renovação dos cristãos como algo chave para a unidade significa que os cristãos, atraídos para mais próximo do Cristo no caminho da santidade, se tornam também mais próximos uns dos outros.
E oramos: Deus eterno e misericordioso, tem misericórdia de tua Igreja e permite que nós, buscando a unidade em Cristo e na verdade da palavra santa, possamos, com um só entendimento e uma só voz, glorificar-te, o Pai de Jesus Cristo nosso Senhor.”
Arcebispo Michael Ramsey, Gateway to God
Editado por Lorna Kendall,
Darton, Longman and Todd, Londres 1988

Oração pelos que ainda se tornarão Discípulos
São João 17.20-25

“Jesus continua, e reza por aqueles que ainda se tornarão seus discípulos. É uma oração que nos inclui. Ele ora para sejamos um, uns com os outros, participando da unidade do Pai e do Filho. Ele reza para que participemos agora na glória da paixão e assim participemos também da glória de Jesus no céu, vendo-a com nossos próprios olhos.
Jesus está a caminho do Getsêmane e do Calvário, mas o céu está perto. Em verdade, quanto mais ele mergulha nas trevas do mundo, mais próximo está dos céus. Isto é assim porque o amor é uno e indivisível, e o amor que sofrerá morrendo aqui na terra, é o mesmo amor que reina eternamente. A oração de Jesus tem se refletido em homens e mulheres de santa vida ao longo dos séculos. São pessoas que sofreram muito mas que descobriram que seu sofrimento foi transfigurado pela luz celestial.
Oramos: Ó Deus, cujo bendito Filho não conheceu a alegria sem primeiro sofrer a dor, nem chegou à glória antes de abraçar a cruz: planta Sua cruz em nossos corações, para que em Seu poder e amor alcancemos ao final de nossa fé, a coroa celestial, pelo mesmo Jesus Cristo nosso Senhor.”

Arcebispo Michael Ramsey, Gateway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman e Todd, Londres 1988


02 março 2008

4º Domingo da Quaresma


São João 13. 1-16
Jesus lava os pés dos seus discípulos


“Notemos as palavras com as quais o evangelista abre seu relato do lava-pés. “Jesus, sabia que tinha chegado a hora de deixar este mundo e ir para o Pai... e sabia, ainda, que tinha vindo de Deus e ia para Deus.” Ele lhes lavou os pés como alguém tendo a completa autoridade divina. Ele mostra, assim, aos seus discípulos, e a nós também, em que consiste a verdadeira glória.
Como é mesmo a glória de Deus? Qual a glória do Deus infinito e eterno que governa e sustenta o universo? Os seres humanos têm ansiado por saber. Agora o véu é colocado à parte: a glória de Deus é como Jesus lavando os pés dos discípulos. É a glória de um Deus que se humilha. Pensemos em como Deus se humilha nas suas relações com o mundo, no nascimento modesto na manjedoura em Belém, no Calvário, e em todos seus atos amorosos e pacientes para conosco. Nesta humildade de Deus é que vemos a semelhança de sua glória.
Adorar significa humilhar-nos a nós mesmos diante do Deus que é humilde também”.


São João 14.12-20
Jesus promete o Santo Espírito

A partida de Jesus para a morte permitirá o começo de uma nova relação entre Ele e os discípulos.
A oração em nome de Jesus deve certamente ser respondida e, rezar em nome de Jesus é fazê-lo como gente por Ele envolvida. O Santo Espírito, vindo para ser seu Advogado e Encorajador, fará com que estas coisas aconteçam. Jesus não se mostrará ao mundo todo, mas aqueles que O amam e guardam suas palavras, O verão, e gozarão ainda da vinda do Pai e da Sua habitação com eles.
Tudo isto será possível porque Jesus está no caminho de sua morte. Os discípulos perderão a relação então visível e sensível – para entrar no relacionamento invisível com Ele no futuro. Que eles se alegrem com o que está ocorrendo. Por enquanto, o conflito é iminente, o príncipe do mal se aproxima. É tempo de ir, e Jesus diz, - Levantem-se e vamos embora!”


São João 17.1-5
A Oração de Jesus


Jesus reza para que, no dia que se aproxima, o dia da Paixão, que o Pai O glorifique e que Ele também glorifique ao Pai. A glória é o esplendor do amor que se dá, e esta é a glória de Deus por toda a eternidade, no poder de auto-doação do Pai e do Filho, no poder do Santo Espírito.
Ela agora será revelada em meio do sofrimento e da morte, sofrimento e morte tão reais que Jesus deles se afasta e se afastará novamente; mas a vontade e a glória do Pai estão acima de tudo e naquela vontade e glória Ele participa livremente.
Faz parte do trabalho de Jesus, em sua missão, dar a vida eterna aos que crêem. A vida eterna é a vida vivida aqui e agora no conhecimento de Deus e de Jesus. Desta forma os discípulos têm um vislumbre das coisas que são eternas, e ao passar Jesus ao sofrimento e morte, tem consigo a eternidade em Seu coração.

Extratos do Gatway to God
Editado por Lorna Kendall
Darton, Longman e Todd, Londres 1988

24 fevereiro 2008

3º Domingo da Quaresma

A preparação para a Conferência de Lambeth de 2008 propõe o Evangelho de São João como texto básico para os estudos bíblicos dos bispos. O texto de São João tem mesmo beleza e intensa inspiração. O saudoso Arcebispo Michael Ramsey escreveu belíssimas páginas sobre o texto joanino. Neste blog, nas próximas semanas, retomaremos algumas delas como inspiração para nossa vida de piedade no tempo da Quaresma.


Lendo São João

“Como poderíamos melhor entender nosso esforço de leitura? O Evangelho de São João nos alcança um quadro da vida e do ensino de Jesus através de um discípulo que ponderou seu sentido e que chegou a compreender sua mensagem para a família humana. Este livro nos mostra Jesus como aquele que experimentou, conheceu e amou há tantos séculos. Mas em nossas leituras não estaremos somente olhando para trás. Estaremos sempre de novo pensando sobre como este mesmo Jesus vive hoje... e nos fala da mesma forma como falou a Nataniel, Nicodemos e à mulher de Samaria. Lemos sobre Jesus da mesma forma como eles o viram e ouviram, séculos atrás. Sabemos que este mesmo Jesus está presente conosco, falando diretamente a nós através dos atos e palavras dos quais lemos.
Devemos rezar: Senhor Jesus, na medida em que lemos o Evangelho de teu discípulo, mostra-nos o que devemos ouvir, receber e fazer. Faz deste Evangelho uma palavra viva para nós todos.”

Gateway to God, Daily Readings with Michael Ramsey

Darton, Longman and Todd, Londres - 1988
Editado por Lorna Kendall


Glória
“As palavras em hebraico e grego traduzidas por – glória – são freqüentemente usadas pelos escritores do Antigo e do Novo Testamento para falar do caráter revelado de Deus e também da resposta de seu povo na adoração e ação. Nenhuma outra palavra é mesmo mais sugestiva sobre o alcance e o caráter da espiritualidade cristã que as palavras glória e glorificar. A palavra hebraica kabod provêm da raiz – peso – e se aplica ao poder ou à riqueza de alguém. Aplicada a Deus, fala de seu poder e caráter, e não menos de sua majestade, transcendência e soberania. Ao lado do sentido de – peso – a idéia de – luz - é também ligada à palavra... e nos fala do brilho de Deus em si mesmo e em sua manifestação ao mundo. A palavra tem também um uso distintivo para a presença divina na nuvem vista pelos israelitas, no tabernáculo, no deserto. É significativo que a palavra usada por Deus mesmo em seus aspectos transcendentais é também usada como sinal particular de sua presença dentre o povo. É parte do tema da – glória – que a glória de Deus evoque a resposta humana tanto nos atos de adoração e louvor quanto no viver de acordo com o propósito de Deus. Nestas duas formas, o povo de Deus é chamado a – glorifica-lo – ou dar glória a Ele...
A fé cristã afirma que o ser humano existe para glorificar a Deus tendo a glória dos céus como alvo. Esta resposta inclui tanto a adoração, com seu temor, dependência e participação... quanto nós, mulheres e homens, nos aproximamos para dela participar e ser por ela glorificados. A participação, no entanto, jamais ofusca a linha de distinção entre o adorador e o Adorado, o redimido e o Redentor, a criatura e o Criador.

Arc. Michael Ramsey,
editado por Gordon S. Wakefield,
A Dictionary of Christian Spirituality, SCM Press, 1986

17 fevereiro 2008

2º. Domingo da Quaresma

Leituras

Gênesis 12.1-8
Salmo 33.12-22
Carta de São Paulo aos Romanos 4.1-5(6-12)13-17
Evangelho de São João 3.1-17

A transformação exige metanóia
SS. Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico*

Transformação como cura para o coração
A Filocalia, uma antologia clássica de textos cristãos sobre oração, destaca o paradoxo impressionante de que a transformação seja conquistada por meio do silêncio: "Quando descobrirmos o silêncio em nossos corações, discerniremos Deus no mundo todo!" Em outras palavras, a transformação começa com a consciência de que Deus está no centro de toda a vida. "Fica em silêncio, e conhece a Deus." (Salmos 44,1). Por meio do silêncio, damo-nos conta de que a graça de Deus está muito mais próxima de nós; na verdade, ela faz mais para definir quem somos do que nós mesmos! A transformação do coração é a profunda consciência de que "o reino de Deus está dentro de vós" (Lucas, 17:21). A transformação interna, contudo, exige mudanças radicais. Na terminologia religiosa, ela exige metanóia - uma mudança de atitude e pressupostos. Não podemos ser transformados a menos que tenhamos antes sido limpos do que quer que se coloque contra a transformação, e tenhamos entendido o que desfigura o coração humano. Esse processo de auto-descoberta resulta apenas da graça de Deus e acaba levando a um respeito verdadeiro pela natureza humana, com todos os seus defeitos, tanto em nós mesmos quanto nos outros. Ele abre caminho para o respeito por todos os seres humanos, independentemente de diferenças, dentro da sociedade e da comunidade global. Através da transformação interna, essas diferenças são bem recebidas, honradas e assumidas como peças únicas de um quebra-cabeça sagrado; elas fazem parte do mistério mais profundo da criação maravilhosa de Deus.

A transformação como cura da comunidade
A transformação do coração surge na transformação da comunidade. A transformação é uma visão de conexão e compaixão. Que lástima que nós, cristãos, muitas vezes dissociemos espiritualidade de comunidade.
Quando nossos corações são transformados pela graça divina, vemos o mundo de forma diferente e somos levados a agir com graça. Por meio da graça transformadora de Deus, somos capacitados para buscar soluções para o conflito através do intercâmbio aberto, sem recorrer à opressão ou à dominação.
Sendo assim, por meio da graça divina, está em nosso poder aumentar a dor infligida a nosso mundo ou contribuir para sua cura. [...] A transformação demanda despertar da indiferença e levar a compaixão a vítimas da pobreza e de todas as formas de injustiça na condição de comunidades de fé e líderes religiosos, devemos imaginar e desencadear caminhos alternativos, que rejeitem a violência e reconheçam a paz. Nossa época será lembrada em função daqueles que se dedicam à cura e à transformação da comunidade. Nosso mundo será moldado por aqueles que crêem e "assim, pois, sigamos as coisas que servem para a paz" (Romanos, 14:19).
Esse tipo de transformação é nossa única esperança de romper o ciclo vicioso da violência e injustiça - vicioso precisamente porque é o fruto do vício. A guerra e a paz são sistemas, e significam sistemas contraditórios de resolver conflitos. [...] Fazer a paz é uma questão de escolha individual e institucional, bem como de mudança individual e institucional. Para isso também é necessária a metanóia - uma mudança nas políticas e práticas. Fazer a paz requer compromisso e coragem, e demanda de nós uma disposição de nos tornarmos comunidades de transformação e buscar a justiça como pré-requisito para a transformação global.

A transformação como cura da Terra
[...] Quando somos transformados pela graça divina, podemos discernir adequadamente a injustiça da qual somos participantes ativos e não meros observadores passivos. Quando somos tocados pela graça de Deus, choramos pela des-graça que causamos ao não compartilhar os recursos de nosso planeta. Portanto, assim como a transformação do coração e da comunidade, a consciência ecológica também deriva da graça de Deus e requer uma metanóia correspondente - uma mudança de hábitos e estilos de vida. Paradoxalmente, tornamo-nos mais conscientes do impacto de nossas ações sobre outras pessoas e sobre a criação quando estamos preparados para abrir mão de alguma coisa. Porque, ao esvaziarmos nosso coração de nossos desejos egoístas, damos espaço para a graça de Deus. [...] Muitas vezes, nossos esforços pela reconciliação e transformação são prejudicados por uma falta de disposição de renunciar a formas estabelecidas como indivíduos ou instituições, por nossa recusa a abrir mão de qualquer consumismo de desperdício ou nacionalismo arrogante. Uma visão de mundo transformada nos permite perceber o impacto duradouro de nossas maneiras de agir sobre outras pessoas, especialmente os pobres, como imagem sagrada de Cristo, bem como o meio-ambiente, como sendo a marca silenciosa de Deus.

(*) Sua Santidade Bartolomeu I, arcebispo de Constantinopla, Nova Roma e patriarca ecumênico, é "primeiro entre iguais" entre os primazes das igrejas ortodoxas, com aproximadamente 250 milhões de fiéis em todo o mundo. [Fonte: 9ª Assembléia do CMI - Porto Alegre, Brasil]

09 fevereiro 2008

1º. Domingo da Quaresma

Leituras

Gênesis 2.4b-9,15-17,25-3.7
Salmo 51.1-13
Carta de São Paulo aos Romanos 5.12-19(20-21)
Evangelho de São Mateus 4.1-11


A Disciplina do jejum

"Algumas pessoas têm exaltado o jejum religioso elevando-o além das Escrituras e da razão; e outras o têm menosprezado por completo." John Wesley.

Em uma cultura onde a paisagem está pontilhada de restaurantes de todos os tipos, o jejum parece fora de lugar, fora de passo com os tempos. Com efeito, o jejum tem estado em geral descrédito, tanto dentro como fora da igreja, por muitos anos. Por exemplo, em minha pesquisa não consegui encontrar um único livro publicado sobre o jejum, de 1861 a 1954, um período de quase cem anos. Mais recentemente desenvolveu-se um renovado interesse pelo jejum, muito embora ele seja freqüentemente dogmático e carente de equilíbrio bíblico.
Que é que explicaria este quase total menosprezo por um assunto mencionado com tanta freqüência nas Escrituras e tão ardorosamente praticado pelos cristãos através dos séculos? Duas coisas. Em primeiro lugar, o jejum como resultado das excessivas práticas ascéticas da Idade Média, adquiriu uma péssima reputação. Com o declínio da realidade interior da fé cristã, desenvolveu-se uma crescente tendência para acentuar a única coisa que sobrou, a forma exterior. E sempre que existe uma forma destituída de poder espiritual, a lei assume o comando porque ela sempre traz consigo um senso de poder manipulador. Daí que o jejum foi submetido aos mais rígidos regulamentos e praticado com extrema automortificação e flagelação. A cultura moderna reagiu fortemente contra esses excessos e tendeu a confundir jejum com mortificação.
O segundo motivo por que o jejum passou por tempos difíceis no século passado é a questão da propaganda. A publicidade com a qual somos alimentados hoje convenceu-nos de que se não tomarmos três boas refeições por dia, entremeadas com diversas refeições ligeiras, corremos o risco de morrer de fome. Isto, aliado à crença popular de que é uma virtude positiva satisfazer a todo apetite humano, fez que o jejum parecesse obsoleto. Quem quer que seriamente tente jejuar é bombardeado com objeções. “Entendo que o jejum é prejudicial à saúde”. “Ele minará as suas forças e assim você não poderá trabalhar.” “Não destruirá ele o tecido saudável do corpo?” Tudo isto, naturalmente, é rematada tolice baseada no preconceito. Embora o corpo humano possa sobreviver apenas durante breve tempo sem ar ou sem água, ele pode passar muitos dias – em geral, cerca de quarenta – antes que comece a inanição. Sem que seja preciso concordar com as infladas alegações de alguns grupos, não é exagero dizer que, quando feito corretamente, o jejum pode ter efeitos físicos benéficos.
A Bíblia tem tanto que dizer a respeito do jejum que faríamos bem em examinar uma vez mais esta antiga Disciplina. O rol dos personagens bíblicos que jejuavam torna-se um “Quem é quem” das Escrituras: Moisés, o legislador; Davi, o rei; Elias, o profeta; Ester, a rainha; Daniel o vidente; Ana, a profetisa; Paulo, o apóstolo, Jesus Cristo, o Filho encarnado. [...] O jejum, está claro, não é uma Disciplina exclusivamente cristã; todas as grandes religiões do mundo reconhecem seu mérito. Zoroastro praticava o jejum, como o fizeram Confúcio e os iogues da Índia. Platão, Sócrates e Aristóteles jejuavam. Mesmo Hipócrates, pai da medicina moderna, acreditava no jejum. Ora bem, o fato de que todos esses indivíduos, na Bíblia e fora dela, tinham o jejum em alta conta não o torna certo ou mesmo desejável; isto, porém, deveria levar-nos a fazer uma pausa e nos dispormos a reavaliar as suposições populares de nosso tempo concernentes à Disciplina do jejum.

[Fonte: FOSTER, Richard. “Celebração da disciplina”. São Paulo: Vida, pg.63-65, 1995].

03 fevereiro 2008

Último Domingo depois da Epifania

Leituras

Êxodo 24.12-18
Salmo 99
Carta de São Paulo aos Filipenses 3.7-14
Evangelho de São Mateus 17.1-9

O ÍCONE DA TRASNFIGURAÇÃO

Neste ícone, contemplamos a figura de Cristo, que se dá a conhecer (teognosis), como verdadeiro Deus, aos apóstolos. É através de sua luz que isso se dá – “em sua luz contemplamos a Luz”(Sl.35,10). Podemos, com isso, dizer, que o ícone da Transfiguração do Senhor é o “Ícone da Luz”, pois é disso, precisamente, que ele fala. É o retrato visível da manifestação divina, da glória além do tempo. Segundo Paul Evdokimov, essa imagem é, mais que qualquer outra, o exemplo do princípio segundo o qual um ícone não há de ser objeto do olhar, senão de contemplação.
Um iconógrafo, depois de ter adquirido um conhecimento aprofundado em matéria de arte, inicia o seu ministério, pintando como primeiro ícone o da Transfiguração. Evdokimov comenta que o ícone, antes de tudo, é pintado não tanto com as cores, mas com a luz tabórica. É desta luz, que o iconógrafo se utilizará para escrever todos os ícones de sua vida. Este, como todos os ícones, é uma verdadeira página da Sagrada Escritura escrita não com tintas e pena, mas com cores e luz.
Iniciemos, portanto, a leitura do ícone:
O ícone da Transfigura retrata a cena central do Evangelho da Transfiguração, relatado nos três Evangelhos sinóticos. O Cristo sobe com os três apóstolos ao monte Tabor e lá se transfigura diante deles. “Seu rosto resplandeceu como o sol, suas vestes tornaram-se brancas como a luz, tão brancas que nenhum lavadeiro do mundo poderia alvejá-las assim.”(cf.Mt.17,2.Mc.9,3). Aparecem então Moisés e Elias, que conversavam com Jesus. Os apóstolos caem com a face em terra diante de tamanha glória. Pedro ousa elevar o olhar e diz: “Rabbi, é bom estarmos aqui; ergamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés, outra para Elias”. Eis que apareceu uma nuvem que os encobriu e dela veio uma voz que dizia: “este é meu Filho bem-amado, ouvi-o!”. Logo após, não viram mais ninguém, a não ser Jesus, só, em sua simplicidade humana, com eles.

O monte

Cristo deseja conduzir estes apóstolos aos cumes do conhecimento de seu mistério. Para isso, sobe com eles o Monte Tabor. É na montanha de Deus, no Horeb, que Deus dá-se a conhecer a Moisés também. Em manifestação semelhante à Transfiguração, na sarça que não se consumia, Deus fala a ele e revela o seu Nome (cf.Ex.3), atitude, que expressa o desejo de Deus em restabelecer diálogo e intimidade com o homem. O desejo do Criador de revelar-se em seu Ser à criatura. É também no Horeb, que Elias conhece o Senhor e o escuta na suave brisa. Ele, como os apóstolos no Tabor, é obrigado a esconder o rosto, pois este Deus é terrível.
A montanha é o símbolo do conhecimento, e para se alcançar este conhecimento, é preciso galgar o duro e árduo caminho do monte, por entre as pedras e espinhos. O cenário rochoso do ícone revela a dureza deste mundo, as dificuldades que o homem tem que atravessar para chegar, ou melhor, para retornar a Deus.

Os Apóstolos

Eles ocupam a parte inferior do ícone, fazendo parte daquilo que é terrestre. Caem prostrados com a face em terra, por não terem suportado tamanho esplendor, e são tomados por um profundo sono (cf.Lc.9,32); mergulham na escuridão e ao acordar vêm a glória de Jesus. Algo semelhante acontece com Saulo, na estrada que leva à Damasco (cf.At.9). Ao ver a luz vinda do céu, cai por terra e mergulha na escuridão. Depois de três dias renasce o homem novo, Paulo, o servo de Deus. Esta passagem pelas trevas faz parte do mistério da morte e ressurreição, pelo qual todo aquele, que deseja conhecer a Deus e o seu Reino deve passar.
Eles não entendem muito bem o que está acontecendo, mas vivem este momento maravilhoso com intensidade e são tomados pelo temor e pela alegria celeste. Sentem o desejo ardente de permanecer mergulhados nesta paz tão sublime; “é bom estar aqui” diz Pedro, o primeiro a acordar.
Jesus tem a intenção de fazer com que estes apóstolos sejam introduzidos no mistério trinitário, da qual Ele é partícipe. Para isso, Ele infunde no coração deles o desejo pelas coisas do alto, que no alto deste monte já têm o privilégio de contemplar. Esse desejo pelas coisas eternas, nada mais é do que o desejo e a ânsia mais profunda de estar com Deus, de estar com o Santo. No alto do Tabor, Cristo transfigura a existência dos apóstolos, infundindo neles a vocação à santidade.
Ao ouvirem a voz vinda da nuvem: “Este é o meu filho bem-amado, aquele que me aprouve escolher. Ouvi-o”(Mt.17,5), eles são tomados de temor. “O fascínio do rosto transfigurado de Cristo não os impede de se sentirem assustados diante da majestade divina que os ultrapassa. Sempre que o homem vislumbra a glória de Deus, faz também a experiência da sua pequenez, provocando nele uma sensação de medo. Este temor é salutar. Recorda ao homem a perfeição divina, e ao mesmo tempo incita-o com um premente apelo à ‘santidade’”.

Moisés e Elias

São estes os dois personagens que os apóstolos vêm ao lado de Jesus. Têm os seus corpos levemente inclinados em sua direção, em sinal de reverência e adoração. Representam a Lei (Moisés) e os Profetas (Elias). Cristo, porém, é a personificação, o centro e o cumprimento da Lei e de toda Profecia.
Moisés, à direita, trás consigo um volume da Lei, que parece oferecer ao Cristo. Tem a alegria de contemplar o que tantos profetas e justos quiseram ter contemplado (cf.Lc.10,23). Por sua vez, o Cristo, já prefigurado pela pessoa de Moisés no Antigo Testamento, trás em sua mão o Evangelho, a “Boa Nova”, que contém em si, de maneira perfeita, toda a Lei e o cumprimento de toda Profecia. Segundo Orígenes, o erro de Pedro ao expressar seu desejo de construir três tendas, está justamente neste ponto: “porque para a Lei, os Profetas e o Evangelho não existem três tendas mas uma só, que é a Igreja de Deus.”
Elias, à esquerda, com sua mão direita, aponta o Salvador; atitude que mostra, que Cristo é o centro das profecias. Como profeta, sua missão foi de revelar aos homens as Palavras que ouvia de Deus, e em particular o seu amor. Agora, no entanto, é o próprio Verbo, o próprio Amor, que vem e se revela em pessoa aos homens. Ele, que teve o privilégio de uma experiência de Deus, das mais belas narradas na Escritura, agora contempla a face do Senhor. Não precisa mais cobrir o rosto, como fez no Monte de Deus, o Horeb, mas fica face a face com Ele, e fala-lhe como a um amigo. Isto porque tanto ele como Moisés, já não pertencem mais a este mundo, mas têm parte na morada celeste. Os “amigos do esposo” têm este privilégio, o de poder falar-lhe ao coração.


O Cristo

O Cristo apresenta-se no centro do ícone, assim como no texto do Evangelho. Isto nos mostra que Ele, de fato, é o Centro de todas as coisas.É dele também que procede toda a luz, que ilumina a cena. Tudo está iluminado por esta luz maravilhosa, que irradia de sua pessoa. Ele é a própria Luz – “O Verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.”(Jo.1,9).
Os evangelistas nos descrevem que Cristo brilhava como o sol e suas vestes eram de uma brancura fulgurante, como a luz. São João Crisóstomo comenta estas comparações como não sendo adequadas, mas eram as que descreviam mais de perto o que viram os apóstolos. Ele é brilhante como o sol, pois que astro conhecemos que tenha maior brilho? Branco como a luz ou como a neve; pois o que há de mais branco? Se o resplendor, segundo João Crisóstomo, tivesse sido como o sol ou como a neve, com certeza, eles não teriam caído com a face em terra; mas porque resplandecesse mais que isto, sim: este é um motivo para caírem por terra.
Os círculos ao redor da figura de Jesus representam os céus. Percebe-se que Ele ultrapassa os seus limites, pois nem mesmo os céus são capazes de conter tamanha grandeza.
Cristo está ao centro do ícone, pois é Ele o centro não só do acontecimento teofânico, mas é em pessoa o Centro e Senhor de tudo o que existe, do visível e do invisível. Ele está entre o céu e a terra, como que suspenso. É o ponto de intersecção entre a realidade celeste e a terrestre; entre a natureza divina e a humana. “Jesus realiza a união de Deus com o homem e do homem com Deus.” É o Unigênito que, saindo do seio do Pai, veio habitar em nosso meio e revelou a Deus, a quem ninguém jamais viu (cf.Jo.1,18). Através deste Mistério, Cristo nos revela sua natureza divina e percebemos claramente, que ele, de fato é o “ícone do Pai”.
Da grande luz, que envolve o Cristo, partem três raios, que incidem diretamente sobre os apóstolos. Por não suportarem tamanho esplendor, caem de rosto por terra, visto que, nenhum homem pode ver a face de Deus e continuar vivo (cf.Ex.33,20). A “luz tabórica”, contemplada pelos apóstolos, é quase nada, uma sombra, em comparação com a luz que envolve a Cristo, a luz inacessível onde habita Deus (cf.IITim.6,16).
Eles contemplam a glória de Cristo, conforme sua capacidade humana, através desta luz que lhes é concedida, pois é em sua luz que podemos contemplar a verdadeira Luz (cf.Sl.35,10). É dada a eles a graça de poderem ver com os seus olhos de homens aquilo que pertence ao mundo espiritual. Segundo a teologia e a tradição orientais, na verdade, não é o Cristo que muda, pois este é Deus, e, em Deus não há mudanças, Ele é eterno desde todo o sempre, “o mesmo ontem, hoje e sempre”. A mudança ou “metamorfose”, acontece nos três escolhidos. São seus olhos humanos que se abrem para uma dimensão espiritual e escatológica. Já neste mundo lhes é dado contemplar o Reino dos Céus, como havia prometido o Mestre.
Aquele que contempla o ícone da Transfiguração, como os apóstolos, recebe um foco da luz divina, que envolve o Senhor. E através desse foco de luz pode contemplar o mistério, que antes de ser compreendido, deve ser vivido em toda a sua intensidade. Visto que o ícone evoca uma presença atual do mistério proposto, assim como as Escrituras o fazem de maneira ainda mais perfeita, aquele que o contempla é convidado a participar e viver o que se lhe apresenta aos olhos.
Busquemos pois escalar este monte santo para ali recebermos, também nós, a graça de sermos transfigurados, antecipando assim, já neste mundo, o Reino dos Céus. Que através desta janela para o mundo celeste, que é o ícone, um raio desta luz misteriosa incida sobre nós e possamos ver o Cristo em sua Glória. Amém.

[Fonte: http://www.transfiguracao.com.br]

27 janeiro 2008

3º. Domingo depois da Epifania

Leituras

Profecia de Amós 3.1-8
Salmo 139.1-7
I Carta de São Paulo aos Coríntios 1.10-17
Evangelho de São Mateus 4.12-23



Missão no Mundo

Na Resolução intitulada “A Tarefa do Laicato”, a Conferência de Lambeth afirma que, “sendo membros batizados do Corpo de Cristo, os leigos participam do ministério sacerdotal da Igreja e são responsáveis pela sua realização”. E formula veemente apelo aos eclesianos em toso o mundo, no sentido de “levarem a efeito a sua vocação, integrando-se plenamente na vida da Igreja, dando testemunho cristão e dedicando-se a servir os propósitos de Deus no mundo”.
Já expuzemos as razões por que temos de tomar a Igreja como nosso ponto de partida, nossa base de operações. Lembremos, porém, que o ministério leigo, parte que é do sacerdócio da Igreja, se destina à obra de reconciliação do mundo com Deus, em Cristo, o nosso divino Sumo Sacerdote. Outra grande Resolução de Lambeth, sob a epígrafe “Deveres do Laicato”, declara: “Todos nós precisamos lembrar que o campo de serviço cristão dos leigos se estende principalmente na esfera secular, onde sua integridade e competência podem melhor ministrar às necessidades do mundo e à Gloria de Deus. O clero deve compreender isso e, pelo seu ensino e participação nos pensamentos e problemas dos leigos em seu trabalho cotidiano, auxilia-los a intensificar esse ministério”.
Costumamos dizer que a missão do Cristianismo no mundo é evangelizar, o que está certo. O problema é que nos habituamos a associar esse termo com a proclamação do Evangelho, de viva voz. Este é, porém, apenas um dos métodos de evangelização e nem sempre o mais eficiente. Pois evangelizar é, na essência, promover a reconciliação do homem com Deus, em Cristo. Este é o sentido profundo do ministério sacerdotal da Igreja, do qual deriva o ministério dos leigos, assim como as Sagradas Ordens. Reconhecemos que os leigos, e não o clero, é que tem o grande ensejo de penetrar fundo na vida profana de nossos dias e levar o Evangelho da Redenção a muitas almas que jamais seriam atingidas pelos processos comuns de evangelização.
Vivemos na era dos grupos profissionais que, não raro, se hostilizam mutuamente, ou se reúnem num clima de tensão e conflito. Os problemas sociais e econômicos se tornam cada vez mais agudos, sob a pressão de classes e partidos. Há famílias que sofrem golpes morais profundos, ou enfrentam a penúria ou o desemprego. Outras estão sob a ameaça do desmoronamento. A Igreja, em tais circunstâncias como instituição, pode parecer distante. Pode ser desconhecida. Pode mesmo não ser desejada. De quem partira, então, a palavra de paz, ou de conforto, ou de orientação construtiva – a palavra que será dita na hora exata e no local exato, com o suave poder de mudar o rumo dos acontecimentos? Só um operário poderia pregar este sermão no seu sindicato, o sermão do seu testemunho vivo. O mesmo diríamos de todos os demais setores de atividades seculares na sociedade contemporânea.
Compondo esta Pastoral principalmente para os nossos dedicados irmãos leigos, insistimos num ponto que consideramos indispensável ao bom êxito de nossas iniciativas. Cuidemos que o conteúdo espiritual de todos os movimentos e organizações na Igreja correspondam sempre aos objetivos redentores de Deus em Cristo, e que todos os nossos esforços tenham sempre em vista a consecução desses objetivos. Tal conteúdo espiritual incluirá certamente um sólido fundamento teológico, a segurança das grandes convicções, a fé que floresce em atos litúrgicos de adoração a Deus, não menos que em atos de solidariedade e de reconciliação entre os homens.
[fonte: Krischke, Egmont Machado. “Crise e Renovação”. Porto Alegre: ed. Metrópole/publicadora Ecclesia, pg. 78-79]

20 janeiro 2008

2º Domingo depois da Epifania

Leituras

Profecia de Isaías 49.1-7
Salmo 40.1-10
1ª. Carta de São Paulo aos Coríntios 1.1-9
Evangelho de São João 1.29-41


São poucos os que amam a Cruz de Jesus Cristo

1. Jesus Cristo tem agora muitos que amam o seu reino celestial, mas poucos que levam a sua cruz. Muitos desejam sua consolação e mui poucos desejam a tribulação. Encontra muitos companheiros para a sua mesa, mas poucos para a sua abstinência. Todos querem gozar de sua alegria, poucos, porém, querem sofrer alguma coisa por Ele. Muitos seguem a Jesus até ao partir do pão, poucos, porém, até ao beber do Cálice da sua paixão. Muitos admiram seus milagres, mas poucos abraçam a ignomínia da cruz. Muitos amam a Jesus, quando não há adversidade. Muitos o louvam e exaltam, enquanto recebem dele algumas consolações. Porém, se Jesus se lhes esconde ou deixa por algum tempo, logo se queixam ou desanimam.
2. Aqueles, porém, que amam a Jesus por amor de Jesus e não por amor da sua própria consolação, tanto o louvam em toda a tribulação e angústia de coração, como nas mais doces consolações. E ainda que nunca mais lhes quisesse dar consolação, sempre o louvariam e lhe dariam graças.
3. Oh! Quanto é poderoso o amor de Jesus, quanto é puro e sem mistura de interesse ou de amor próprio. Não são por ventura mercenários os que sempre buscam consolações?
Não se amam a si mais que a Cristo os que de contínuo pensam em seus proveitos e comodidades? Onde se achará algum homem que queira servir a Deus, de graça? Ainda entre as pessoas espirituais raramente se encontra uma que viva inteiramente desapegada de tudo.
4. Quem descobrirá, pois o verdadeiro pobre de espírito e desapegado de amor de todas as criaturas? “Pérola preciosa que é necessário buscar até às extremidades da terra”. (Prov. 31.10). “Ainda que o homem dê por ela quanto possui, nada dá” (Cant. 8.7). Se fizer grande penitência, ainda é pouco. Ainda que compreenda todas as ciências, está longe dela. E se tiver grande virtude e mui fervorosa devoção, ainda lhe falta a coisa mais necessária. Qual é essa coisa necessária? É que, deixado tudo, se deixe a si mesmo, e saia totalmente de si e não lhe fique nada de amor próprio. E quando tiver feito quanto crê dever fazer, ainda se persuada de que nada tem feito.
5. Não tenha em muito que o avaliem por grande, mas confesse com toda a sinceridade que é um servo inútil, como dia a Verdade eterna: “Quando tiverdes feito tudo que vos é mandado, dizei: Somos servos inúteis”. (Lc. 17.10). Quando o homem chegar a este ponto, então poderá chamar-se verdadeiro pobre de espírito e desapegado de tudo, e dizer com o Profeta: “Sou pobre e só no mundo” (Sl. 24.16). Ninguém, todavia, é mais rico, ninguém, mais poderoso, ninguém, mais livre que aquele que sabe deixar-se a si e a todas as coisas, e pôr-se no último lugar.

[St. Thomas à Kempis, “Imitação de Cristo”. São Paulo: Ave Maria, 23ª. ed., cap. XI, pg. 172-175.]

13 janeiro 2008

1º. Domingo depois da Epifania

Leituras

Profecia de Isaías 42.1-9
Salmo 89.20-29
Atos dos Apóstolos 10.34-38
Evangelho de São Mateus 3.13-17

Os textos deste domingo trazem as impressões elementares para uma cristologia messiânica. Um novo sinal da ‘epifania’ cristocêntrica no Batismo de Jesus Cristo. Por isso, o primeiro domingo depois da Epifania também é chamado de domingo do Batismo de N. Sr. Jesus Cristo. O mistério apontado pela coleta reside na manutenção da aliança batismal feita em Jesus Cristo, por isso nossa ênfase será essa entre tantos temas transversais às lições dominicais. A releitura cristã do ‘Canto do Servo’ na Profecia de Isaías encontra seu paralelo no Evangelho de Mateus. Em Isaías, Javé dá o Espírito (Ruhi) ao seu Servo – o mesmo que pairava sobre as águas em Gn. 1 – para o Julgamento das nações. Em Mateus após o batismo de S. João Batista, o céu se abre, o Espírito de Deus (Pneuma tou Theou) repousa em forma de pomba e uma voz rompe o silêncio. A unção de Jesus Cristo com o Espírito de Deus é o marco inicial de sua missão entre a humanidade, após esse acontecimento Jesus vai para o deserto para sua preparação. O Salmo 89 nos fala da unção de Davi e a palavra servo (v.20) também é utilizada. Os medievais irão chamar a Plenitude de Cristo como “gratia unionis”. Não propositalmente o texto se enquadra neste domingo. Em todo o tempo da Epifania, a messianidade régia de Jesus é defendida pelos evangelistas, e a ligação direta com Davi teologicamente é necessária. Jesus o servo ungido por Javé como Davi. Essa conotação é dada por Pedro em seu discurso nos Atos dos Apóstolos quando diz que Jesus foi ungido com o Espírito Santo e com Poder (dünamei – melhor traduzido por potência), a força criadora do Universo. O texto é perpassado por uma cristologia do espírito (pneumo-cristologia).
O batismo de Jesus não deve ser modelo doutrinário para o batismo cristão, pois certamente não foi batismo de arrependimento e ‘novo nascimento’ como a construção paulina do sacramento, mas como o texto evangélico diz: para que se cumpra a lei (justiça). Por isso,o próprio S. João Batista hesita em batizá-lo. Entretanto o batismo de Jesus o alinha com toda a esperança escatológica do Reino de Deus. Em Isaías, o servo é chamado para ‘abrir os olhos dos cegos’ – libertação da alienação, ‘soltar do cárcere’ – libertação da opressão e ‘libertar os que habitam nas trevas’ – libertação da ignorância (v.7). Em Atos, Pedro diz que Deus não faz acepção de pessoas (v.34), ou seja, não toma partido; e em Isaías o Servo é chamado para ser Luz das nações (v.6). Interessante também reparar a intensa Teologia da Criação no v. 5 de Isaías. Jesus é chamado para uma Nova Aliança, para a restauração de toda a criação para a Nova Criação. A novidade da Nova Criação já é antecipada por Isaías: ‘coisas novas vos anuncio!’ Esta aliança é a que fazemos em nosso batismo e lembrada pela coleta de hoje para que zelemos por ela. É pelo zelo aos votos de nossa aliança batismal que mantemos a esperança de nossa salvação em Jesus Cristo. S. Pedro nos diz que ‘Deus estava com ele’, uma inversão de S. João cap. 1, que nos diz que o verbo estava com Deus no princípio de todas coisas. Na Nova criação, Deus está com o Verbo, encarna-se. A pergunta de todos os tempos: “Onde encontraremos a Deus?” A comunidade das origens cristãs não hesita em responder de maneira paradoxal: “Deus está em Cristo!” Jesus é o Emanuel, o Deus conosco e do nosso lado. A efusão do Espírito sobre Jesus, permite reler a história de trás para diante e reconhecer a vocação de toda a criação para Cristo desde o início.

06 janeiro 2008

Epifania

Leituras
Profecia de Isaías 60.1-6, 9
Salmo 72.1-2, 10-17
Carta de São Paulo aos Efésios 3.1-12
Evangelho de São Mateus 2.1-12



“Onde está o recém-nascido Rei dos Judeus?” Esta é a pergunta intrigante do texto de São Mateus. O conto da visita dos magos do Oriente, e que depois na tradição foram contemplados como Reis-Magos Gaspar, Baltazar e Melchior, nos atentam para a grande promessa messiânica presente especialmente no profeta Isaías, que diz que o Emanuel, será “Luz” para todas as nações, luz para os gentios. O que o evangelista recorda é a messianidade de Jesus e a universalidade da salvação. Jesus é primeiramente procurado por “gentios”, para ser cultuado, expressão mais coerente com o verbo ‘proskünésai’ (prostração, reverência), tema que será tratado por São Paulo. A mesma palavra é utilizada por Herodes no v. 8 de São Mateus, entretanto misteriosamente os magos são avisados em sonho sobre sua verdadeira conspiração. Certamente a matança dos Santos Inocentes gerada por Herodes justifica a fuga dos magos por outro caminho, despistando o poder opressivo e tirânico, do menino-Deus ainda tão frágil ao colo da Virgem Maria. A Estrela-Guia sinalizou aos magos o lugar exato em que estava o menino, e o v.10 enfatiza a grande alegria sentida por eles ao ver novamente a estrela, e diz: ‘regozijaram com uma alegria muito grande.’ Ao encontrar o menino lhe ofereceram ouro, incenso e mirra. Estes presentes simbolicamente representam as oferendas dadas a um Rei (ouro), a um Deus (incenso) e ao Soberano vitorioso da morte (mirra - utilizada para embalsamar os corpos). A alegria é a marca física mais expressiva do encontro do homem com Deus. A inesgotável e imensurável alegria ao encontrar Jesus desdobra-se no mais genuíno culto de louvor ao Messias. Prostração e tributo em oferendas nada medíocres são sinais da intensidade do mistério revelado. Em dias em que nem alegria, e muito menos tributos são oferecidos ao Senhor nas Igrejas, questionamos nosso próprio sentido de adoração. Onde está o “recém-nascido” Jesus? Se W. Temple está correto em sua afirmação, então é através da adoração que encontraremos a santidade de Deus. Então a adoração pública a Cristo, deverá ser o encontro real das pessoas com Ele, o recém-nascido. Assim, não de forma apelativa, os “gentios” saberão reconhecer entre os cristãos, o “espírito” do Cristo presente, manifesto, em uma Epifania. Na carta aos Efésios, São Paulo destina suas palavras aos “pagãos”, entretanto a palavra utilizada é ‘etnon’, dando mais a entender ‘povo – nação’. No v. 4, Paulo fala acerca do “Mistério de Cristo”. Que mistério era esse? O mistério segundo Paulo é revelado pelo Espírito, e sua mensagem era a da participação no mesmo “corpo” [místico] e de partilhar da mesma “promessa”. São Paulo entende que é através da adoração a Cristo que participamos da nova realidade da fé e observamos “a incalculável riqueza de Cristo.” (v.8). Na profecia de Isaías, Jerusalém emana a Luz divina. Ao seu redor, todas as nações estão cobertas de trevas, escuridão e névoa. A luz de Jerusalém alcançará todos os povos, e por ela todos serão guiados. No v.5, Isaías diz que o coração explodirá de grande emoção, e trarão as riquezas e os tesouros. No v.6 ele diz que uma grande quantidade de camelos invade Jerusalém trazendo ouro e incenso. Esse é um importante paralelo com o Evangelho. Nós, recebido o Espírito Santo, portamos essa luz que é de Cristo, e que é Cristo manifesto em nossas vidas. A devoção diária, o serviço e a piedade, a adoração e a presença sacramental da Igreja em nossas vidas manifestam (epifania) a Luz de Nosso Salvador. E se as pessoas perguntarem: Onde encontrarei Deus? Saberemos dizer onde está a Estrela-Guia.